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GRADUAÇÕES COM CURRÍCULOS ABERTOS ENSINAM NA PRÁTICA AUTONOMIA E RESPONSABILIDADE. OUTRA VANTAGEM É OFERECER UMA FORMAÇÃO MAIS AMPLA, QUE PERMITE AOS ALUNOS OPTAR POR DIFERENTES TRILHAS

Por Luciana Alvarez

O conceito tradicional de curso universitário com um número limitado de anos, uma carga horária definida e uma grade de disciplinas sequenciais e obrigatórias vem sendo desa-fiado por algumas instituições de ensino superior do Brasil e do mundo, que passaram a oferecer aos estudantes currículos mais abertos e interdisciplinares. Em uma economia que exige dos profissionais flexibilidade crescente, parece fazer menos sentido o modelo estabelecido atualmente no qual o mesmo currículo, nos mesmos tempos, serve igualmente para todos.

 

Mas sair dos padrões vigentes tem certo preço. A cada vez que precisa preencher um formulário onde se pergunta “profissão”, Gabriel Camargo de Carvalho, 27 anos, sente na pele a inadequação entre categorias preestabelecidas e a realidade. “Até hoje nunca encontrei a opção de neurocientista, então seleciono sempre a categoria ‘outros’”, conta o neurocientista formado da Universidade Federal do ABC (UFABC). Ele sente também o quanto a falta de fronteiras claras entre as novas carreiras ainda confunde a maior parte das pessoas. “Quando digo que sou neurocientista, muita gente acha que sou médico. Trabalho com inteligência de dados para comunicação, embora tenha colegas de faculdade que hoje fazem pesquisa em laboratórios. Vejo que a definição da profissão é algo cada vez mais complexo em muitas áreas, não só para mim”, diz.

 

Instituída por uma lei de 2005 e recebendo os primeiros alunos em 2007, a UFABC foi uma instituição concebida para oferecer bacharelados interdisciplinares. Em três anos de curso, os universitários recebem o diploma de Bacharelado em Ciência e Tecnologia (BC&T), ou em Ciências e Humanidades (BC&H). Se desejarem, podem dar prosseguimento aos estudos com cursos de formação específica. São seis ligados ao BC&H e 19 ao BC&T. Além de poderem definir mais tarde em qual área de especialização desejam entrar – e até se de-sejam uma área específica –, os estudantes da UFABC dispõem não de uma grade, mas de um cardápio de disciplinas, com o qual vão montando seus próprios currículos.

 

Na época do vestibular, Carvalho imaginava que faria alguma engenharia. “Tive muitas dúvidas vocacionais, estava pensando em fazer engenharia, mas não sabia qual. Um amigo me indicou e eu fui conhecer pessoalmente a UFABC. Ao saber da proposta de fazer um curso de ingresso generalista, fiquei fascinado”, lembra.

 

Para ele o desafio de escolher as disciplinas que comporiam seu currículo trazia um misto de diversão e amadurecimento. “Estava entrando de fato na fase adulta, que exige escolhas, como montar a grade de cada período. Eu adorava a possibilidade de fazer matérias do bacharelado em Ciências e Humanidades. Ganhei um repertório muito rico.” Com o passar dos anos, experimentando disciplinas de alguns campos diferentes, acabou desistindo da engenharia e se encaminhou para a neurociência.

 

A pró-reitora de graduação da UFABC, Paula Tiba, lembra que o diploma do bacharelado interdisciplinar (BI) é curso superior completo, suficiente para o ingresso no mercado de trabalho e em um mestrado. Mas a maior parte dos estudantes escolhe se manter por mais tempo estudando e obter o segundo diploma de graduação, o de formação específica. “De 70% a 80% dos nossos estudantes fazem o curso específico. Um aluno pode terminar o BI, entrar no mestrado, e continuar simultaneamente a formação específica”, explica.

 

Segundo Tiba, a necessidade de escolher as várias disciplinas durante todo o curso é um desafio mais fácil de ser vencido do que a necessidade de optar logo no vestibular pela carreira, pois promove um amadurecimento paulatino e constante – não há um peso tão grande em uma escolha errada. “Pelo momento da escolha inicial, com o candidato em geral adolescente, ajuda a entrada ser em um curso generalista. Aqui ele não precisa escolher se quer a engenharia A ou B aos 17, 18 anos. Dentro da universidade, ele vai cursando, experimentando, percebendo aquilo com o que tem maior afinidade. Todos os componentes que ele fizer vão ser aproveitados; nada vai ser perdido. A gente posterga a grande escolha”, afirma.

 

Outra vantagem do modelo, de acordo com a pró-reitora, é que os universitários aprendem a fazer escolhas e se responsabilizar por elas. “O aluno pode fazer disciplinas de toda a universidade, qualquer campus, qualquer período. Há alguns componentes obrigatórios, mas não é obrigado a fazer naquele momento específico. O estudante pode escolher que naquele ano ele não quer ir para aulas às sextas-feiras. No outro, ele pode pegar aulas nos períodos matutino e noturno para com-pensar e não atrasar o curso”, exemplifica.

 

Junto com a proatividade, conquistada pela capacidade de assumir a autoria do próprio percurso acadêmico, o fato de os universitários transitarem entre diferentes áreas e estudarem em classes com perfis muito diversos confere um caráter mais flexível à formação geral. “Aqui o nosso engenheiro tem um conhecimento melhor de ciências humanas. É um profissional realmente interdisciplinar”, diz Tiba.

 

O ex-aluno Gabriel de Carvalho concorda que a convivência com pessoas de outras áreas na universidade foi positiva, pois contribuiu para que aprendessem a trabalhar bem com pessoas de diferentes áreas. “Na classe a gente tinha juntos o futuro engenheiro aeroespacial, o neurocientista, o bacharel em relações internacionais, por exemplo. Uma sala de aula diversa traz uma riqueza muito forte, porque temos diferentes entendimentos de cada assunto.”

 

NOVAS EXPERIÊNCIAS

A UFABC foi a pioneira no Brasil a oferecer bacharelados interdisciplinares seguidos de um segundo ciclo, opcional, de formação profissional específica. Mas desde sua criação diversas instituições, sobretudo universidades federais, passaram a oferecer programas semelhantes, como UFBA, UFJF, UFRN, UFOPA, UFRB, UNIFAL-MG, UFVJM. Juntas, elas ajudaram a elaborar os referenciais orientadores do MEC para esse tipo de graduação.

 

Mas a proposta de oferecer um currículo aberto tem outros formatos, não necessariamente vinculados a um bacharelado interdisciplinar. A Unisinos, sediada em São Leopoldo (RS), deu início este ano a um novo modelo de organização em 21 dos seus 76 cursos de graduação, para que os alunos tenham a possibilidade de fazer escolhas em seus próprios currículos mesmo em cursos tradicionais, como Administração, Direito, Engenharia, Jornalismo, Nutrição.

 

Segundo o pró-reitor acadêmico e de relações internacionais da instituição, Alsones Balestrin, o modelo levou um ano para ser elaborado e contou com grande colaboração de todo o corpo docente. “Olhamos muito para universidades americanas e europeias para desenhar nossa proposta. Nos primeiros anos nos aproximamos do modelo americano; nos últimos, do europeu. Tudo dentro das margens dadas pelas diretrizes curriculares do MEC”, explica.

 

No primeiro semestre, em vez de disciplinas específicas, todos os estudantes fazem matérias que ajudam a desenvolver competências fundamentais para os futuros profissionais de qualquer área. “Nos inspiramos no modelo americano, em que o estudante entra em um curso indefinido e começa desenvolvendo competências importantes para todos os campos, como pensamento computacional, colaboração”, diz Balestrin.

 

Uma das grandes vantagens de um início comum é o aproveitamento dos créditos mesmo que o jovem mude de curso de graduação. “Mais da metade dos jovens que entram no ensino superior não têm segurança de que estão fazendo a escolha certa. Então, ele começam a construir uma base de competências comuns ao advogado e ao engenheiro”, afirma o pró-reitor.

 

Depois do início comum, as turmas se dividem, cada uma com os componentes específicos de seus cursos. No último ano, contudo, chega a hora de o formando optar pelo rumo que deseja dar para sua carreira. Dentro da profissão de advogado, pode-se seguir carreiras de gestor, funcionário público, professor. “A proximidade do final do curso deixa uma certa ansiedade em relação à carreira que o estudante vai desenvolver. Para direcioná-los, oferecemos cinco trilhas. Não importa o curso, ele vai assumir um desses caminhos”, diz Balestrin. As opções são empreendedorismo, inovação social, mestrado, internacionalização e específica do curso.

 

Para quem desejar empreender, não importa qual seja a graduação, vai ter conteúdos de plano de negócios, o trabalho final vai ser um pitch e, quando se formar, terá direito a seis meses de incubação no parque tecnológico da universidade, segundo o pró-reitor. Quem optar pelo mestrado, já faz do TCC uma pesquisa que poderá ser aproveitada na pós-graduação. Quem for para a trilha da internacionalização, será encaminhado para algum intercâmbio. “Hoje, você vai em um curso de Direito, Engenharia, Administração e, como todos os alunos enxergaram o mesmo conteúdo, saem da faculdade muito iguais. A gente quer que, numa turma de 50 alunos, cada um tenha sua trajetória.”

 

Ainda que seja só o início da mudança, professores e docentes parecem ter aprovado o novo formato. “É uma disrupção para os próprios professores trabalhar dentro da perspectiva da flexibilização. Mas eles participaram muito da formatação atual. E juntos desenvolvemos capacitações, fizemos avaliações e ajustes necessários”, diz Balestrin. Do ponto de vista dos alunos, o modelo está aprovadíssimo. “Acabamos de fazer a primeira avaliação com os alunos e a grande maioria está bastante satisfeita.”

Embora seja uma mudança cultural fazer escolhas no currículo do ensino superior, a atual geração de jovens tem se mostrado pronta para a novidade. “Claro que a autonomia demanda mais responsabilidade, e alguns podem não gostar. Mas de forma geral o aluno de hoje não quer ser mais um sujeito passivo no aprendizado. Ele escolhe quase tudo na sua vida e quer fazer escolhas na universidade também”, afirma Balestrin. Da UFABC, Paula Tiba concorda que o jovem é, sim, capaz – e gosta – de ter voz ativa sobre a construção do seu currículo. “Antes, a maioria tinha uma surpresa. Agora é cada vez mais comum a gente ouvir de alunos que eles quiseram vir para UFABC por causa do caráter aberto do nosso currículo.”

 

CONTEXTO GLOBAL

A oferta de um currículo aberto, no qual os estudantes podem montar a própria grade de disciplinas de acordo com interesses particulares em vez de seguir um caminho predefinido, não é exatamente uma novidade. Ao menos não nos Estados Unidos. Em maio completou 50 anos que a norte-americana Brown University tem como premissa a liberdade para que cada universitário monte seu currículo. Mesmo que a iniciativa seja antiga, ainda hoje a Brown se distingue dentro do sistema de educação superior dos Estados Unidos por não exigir um núcleo curricular, nem ter requisitos de distribuição de disciplinas entre as áreas. A instituição é considerada a 7a melhor dos EUA pelo ranking Times Higher Education (THE) de 2019.

 

O currículo aberto da Brown está fundamentado em três princípios: os estudantes precisam ter um papel ativo e assumir responsabilidades; a educação superior é um processo de desenvolvimento intelectual individual em vez de transmissão de uma gama de conhecimentos; o currículo deve encorajar a experimentação, integração e síntese de diferentes disciplinas. De acordo com as escolhas que fazem ao longo dos anos de estudo, os egressos podem obter diploma em uma das 80 diferentes áreas de concentração, que vão desde cursos tradicionais como Arquitetura e Ciências da Computação, até alguns bem singulares, como “análise e pesquisa social”, “cultura moderna e mídia” e “estudos urbanos”. Há ainda a possibilidade excepcional para que estudantes criem um “novo” campo, se comprovarem que fizeram uma trajetória curricular coerente, que não se enquadra nas 80 propostas já oferecidas.

 

Outras universidades renomadas também caminham para montar estruturas menos rígidas aos alunos, como o caso da Stanford University, na qual o currículo, embora tenha alguns requisitos mínimos, não obriga os alunos a seguir disciplinas nas quais não tenham interesse. Localizada no coração do Vale do Silício, a instituição tem a fama de ser uma das mais inovadoras do mundo e tem entre seus egressos fundadores de companhias como Google, Netflix e Instagram.

Dentro de Stanford, a Escola de Design criou a proposta da Open Loop University, que visa flexibilizar o período dos estudantes na academia. Em vez de quatro anos universitários, a ideia é que os estudantes permaneçam seis anos nas carteiras, mas em períodos não consecutivos. Assim, o estudante poderia pegar um diploma parcial, ir ao mercado de trabalho e, com base nessa experiência prática, voltar para finalizar os estudos mais tarde, mudando de foco, ou se aprofundando em alguma área.

 

Embora não haja previsão para que o modelo Open Loop seja implementado tão cedo, o conceito se tornou um marco e outras universidades americanas passaram a adotar estratégias semelhantes, só que na pós-graduação. A Universidade da Pensilvânia, a Boston University e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) passaram recentemente a oferecer micromasters, ou micromestrados. São cursos online para que os estudantes possam começar a fazer pós-graduação sem se comprometer a um programa de mais de um ano. Quem tiver boa performance em um micromaster pode mais tarde se candidatar a uma vaga no mestrado regular, e já elimina parte das disciplinas para obter o diploma “completo”.

 

NA EUROPA

Experiências bem-sucedidas de currículo aberto não são exclusividade norte-americana, nem de universidades reconhecidas como inovadoras. Em Portugal, a Universidade de Coimbra, que completou 728 anos de fundação e é a 15a mais antiga do Velho Continente, também adota desde 2015 um currículo aberto nos 13 cursos da Faculdade de Letras (FLUC). Embora ainda mantenha certa estrutura, o novo modelo passou a permitir que os estudantes tenham uma liberdade muito grande para escolher o seu percurso de ensino em comparação aos demais cursos no país. Segundo disse o diretor da faculdade na época da reforma, José Pedro Paiva, a mudança tem como objetivo oferecer uma formação ampla e uma dimensão interdisciplinar.

 

A reforma de 2015 prevê que cada aluno escolha 3 entre 12 disciplinas de iniciação da faculdade, indiferenciadas quanto ao curso. Depois, dentro de sua área de especialidade, que é o núcleo da graduação, ele precisa optar por 18 entre 24 cadeiras. Há ainda uma trajetória de “formação geral” – em que o estudante deve fazer quatro matérias das outras 12 graduações da FLUC – e uma trilha de “formação complementar”, na qual se propõe ao aluno que curse cinco disciplinas de uma mesma área do saber, dentro ou fora da FLUC. Com essa formação complementar, além do diploma principal, o jovem obtém um diploma de “estudos menores” numa segunda área de conhecimento.

 

No mesmo ano de lançamento, o modelo curricular da Faculdade de Letras de Coimbra recebeu o importante prêmio nacional de inovação em educação da Fundação Calouste Gulbenkian, dando mostras de sua adequação e pertinência aos novos tempos.