QUESTÕES DE LITERATURA

O MESTRE DAS SUTILEZAS

CRÍTICO DA SOCIEDADE FALSA E DA RETÓRICA VAZIA, O TEXTO MACHADIANO REQUER CUMPLICIDADE DO LEITOR, QUE POR SUA VEZ DEVE ESTAR ALERTA ÀS IRONIAS DO AUTOR

Machado de Assis foi o crítico da sociedade fútil, da falsidade dissimulada, da retórica vazia, mas era consciente de que é impossível fazer o relato completo da realidade, pois o sentido das coisas não é estável, mas imprevisível. Sinal de seu encanto contínuo, já se falou tanto de Machado que até as interpretações consagradas sobre sua obra conquistaram o benefício da dúvida; ou, pelo menos, da relativização. Há quem ache irrelevante, por exemplo, o “enigma de Capitu”, de ser ela ou não traidora; que o projeto de Dom Casmurro não é só a incerteza sobre a mulher de Bentinho ou sobre o narrador Bentinho, mas sobre a própria condição de narrador.

Cara à obra machadiana, a chamada sátira menipeia traz uma situação fantasiosa, mas seu registro se dá no ponderado, no distanciamento e nos elementos de realismo que tornariam uma situação plausível. Memórias Póstumas de Brás Cubas é a encarnação mais explícita dessa tradição sutil, utilizada por Machado a favor de um olhar compreensivo das fraquezas humanas, sempre com ironia, tendo o leitor como cúmplice.

“GOSTO DOS EPITÁFIOS; ELES SÃO, ENTRE A GENTE CIVILIZADA, UMA EXPRESSÃO DAQUELE PIO E SECRETO EGOÍSMO QUE INDUZ O HOMEM A ARRANCAR À MORTE UM FARRAPO AO MENOS DA SOMBRA QUE PASSOU. (MEMÓRIAS PÓSTUMAS, CAPÍTULO CLI)”

PERFIL

A FANTASIA REALISTA

Para muitos, Machado teria desenvolvido sua escrita dentro de um marco de ironia estilística, que José Guilherme Merquior tornou célebre numa conferência (Machado em Perspectiva) na UFRJ (1989). Merquior chama atenção para a originalidade de Enylton de Sá Rego, o primeiro a vincular Machado à tradição menipeia, encarnada de maneira explícita por Memórias Póstumas. Assim, cantar a tragédia com gravidade seria jogar no mesmo terreno da melancolia, do mundo de certezas opacas e unívocas. Mas parodiar a morte é rir da própria autopiedade. E Machado o fez embaralhando gêneros e abusando da ironia quando parecia usar técnicas consagradas por escritores realistas da época. Seu humor é gráfico, brinca com associações de ideias e desenha-se na imaginação do leitor.

COMO ESTUDAR

RETRATO DE UMA ÉPOCA

O carioca Machado de Assis escreveu obras que pertencem, ao mesmo tempo, a diversas escolas literárias, como o Romantismo e o Realismo, por exemplo. Contudo, muitos vestibulares costumam enfatizar a leitura do crítico Roberto Schwarz, no livro Ao Vencedor as Batatas (1977), para o qual a crítica à sociedade permeia toda a obra machadiana. Nesse sentido, o protagonista de Dom Casmurro (1899), Bentinho, é uma espécie de retrato do patriarcado brasileiro: mimado, que vai morar na Europa, autoritário e moralista. Além disso, encontra-se no texto uma ironia em relação à sociedade senhorial da época, o que às vezes é cobrado pelos vestibulares.

RESUMO

DOM CASMURRO

Bento Santiago, o Dom Casmurro do título, é homem de origem abastada, que recapitula na velhice a história de amor com uma mulher inteligente, independente e de família humilde, que ele acredita tê-lo traído. Narrados em primeira pessoa por Bentinho, os episódios por ele descritos assumem a forma que interessam ao narrador-personagem. Machado faz seu narrador pender para descrições distintas dos mesmos fatos na primeira metade do livro e na parte seguinte. Não se sabe a que interpretação se fiar fora o fato de o adultério ser encarado como uma condenação de um casal de classes sociais distintas, o que dá à ofensa um outro peso.

TESTE

MACHADO NO VESTIBULAR

(FUVEST 2008) Texto para as questões 49 e 50: “Meses depois fui para o seminário de S. José. Se eu pudesse contar as lágrimas que chorei na véspera e na manhã, somaria mais que todas as vertidas desde Adão e Eva. Há nisto alguma exageração; mas é bom ser enfático, uma ou outra vez, para compensar este escrúpulo de exatidão que me aflige.” (Machado de Assis, Dom Casmurro)

 

49. Considerando-se o contexto desse romance de Machado de Assis, pode-se afirmar corretamente que, no trecho acima, ao comentar o próprio estilo, o narrador procura:
a) afiançar a credibilidade do ponto de vista que lhe interessa sustentar.
b) provocar o leitor, ao declará-lo incapaz de compreender o enredo do livro.
c) demonstrar que os assuntos do livro são mero pretexto para a prática da metalinguagem.
d) revelar sua adesão aos padrões literários estabelecidos pelo Romantismo.
e) conferir autoridade à narrativa, ao basear sua argumentação na História Sagrada.

50. O “escrúpulo de exatidão” que, no trecho, o narrador contrapõe à exageração ocorre também na frase:
a) No momento em que nos contaram a anedota, quase estouramos de tanto rir.
b) Dia a dia, mês a mês, ano a ano, até o fim dos tempos, não tirarei os olhos de ti.
c) Como se sabe, o capitão os alertou milhares de vezes sobre os perigos do lugar.
d) Conforme se vê nos registros, faltou às aulas trinta e nove vezes durante o curso.
e) Com toda a certeza, os belíssimos presentes lhe custaram os olhos da cara.