QUESTÕES DE LÍNGUA PORTUGUESA

O DELICADO EQUÍLIBRIO DA LINGUAGEM

A MANUTENÇÃO DO PARALELISMO SINTÁTICO E SEMÂNTICO DOS ENUNCIADOS ASSEGURA O EQUILÍBRIO DO TEXTO TORNANDO-O MAIS CLARO, AINDA QUE A FALTA DE SIMETRIA ENTRE FRASES E EXPRESSÕES NÃO SEJA UMA INFRAÇÃO À GRAMÁTICA

Por Chico Viana

O QUE CONSULTAR

Uma boa exposição acerca do paralelismo gramatical e semântico encontra-se em Comunicação em Prosa Moderna, do professor Othon Moacyr Garcia (Editora FGV, 2003). O autor destaca a necessidade de se manter a simetria para não só melhorar a estética da frase, como também evitar truncamentos que prejudiquem a clareza. Com exemplos didáticos, mostra alguns dos efeitos da ruptura quando não se observa a equivalência morfossintática dos elementos que figuram nos pares correlativos e nas expressões denotativas (isto é, ou seja, ou melhor, etc.).

O QUE ESTUDAR

Conhecer o processo de coordenação, distinguindo-a da subordinação, é importante para que se escreva respeitando o paralelismo. Não se trata de decorar nomenclatura, mas de compreender que determinadas ideias mantêm entre si relação de independência, igualdade, e devem por isso apresentar identidade formal.

É importante detectar repetições como a seguinte, provocada pela falta de paralelismo: “Os donos das emissoras de TV não só irão afetar a eles mesmos, como também irão estragar o futuro dos jovens.” A dupla ocorrência do verbo “ir” mostra que alguma coisa não vai bem nessa frase. Como auxiliar, ele se refere aos dois verbos principais do período (afetar e estragar) e só precisa figurar na primeira oração. Resolve-se o problema deslocando o primeiro membro do par correlativo: “Os donos das emissoras de TV irão não só afetar a eles mesmos, como também estragar o futuro dos jovens”.

FIQUE POR DENTRO

Merece cuidado o uso dos pares correlativos aditivos “não só… mas também”, “não só… como também” e “não tanto… quanto.,.”, nos quais é comum haver a quebra do paralelismo morfossintático. Esses pares devem ligar termos de idêntico valor. O efeito da ruptura nesses casos pode até não comprometer o sentido, mas prejudica a harmonia da frase.

Na passagem: “Você não só contraria a sua consciência, como também os seus princípios”, a presença de “não só” antes do verbo faz esperar oração depois de “como também”. Isso não ocorre porque o aluno pretendia coordenar termos simples (princípios e consciência). Para obter isso, deveria apresentar esses substantivos como complementos do verbo “contrariar”: “Você contraria não só a sua consciência, como também os seus princípios”.

Neste outro fragmento não se respeitou a igualdade formal dos predicativos coordenados: “Talvez o preconceito se explique por se achar que pobre é indefeso, explorado e que todos o hostilizam.” Se os dois primeiros aparecem como adjetivos não oracionais, o terceiro também deve assim aparecer: “…indefeso, explorado e hostilizado por todos.”

Mais graves são os casos em que se cruzam os componentes dos pares correlativos. A contaminação de um elemento por outro impede que se articulem coerentemente os termos que eles introduzem. Por exemplo: “É preciso não só combater a violência e sim melhorar as condições sociais do país.” O par “e sim” não pode substituir “como também”, pois tem valor de contraste, não de adição.

O PARALELO QUE DESVIA

A quebra do paralelismo semântico pode ter efeito estilístico, pela surpresa que um vocábulo inesperado causa no leitor. Geralmente esse efeito resulta da associação de diferentes campos lexicais. Com isso torna-se possível alcançar sentidos que a distribuição lógica e gramatical dos termos não é capaz de produzir. O “Poema do contra”, de Mario Quintana, exemplifica esse procedimento:

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

Espera-se que o último verso se correlacione com o anterior em termos morfológicos e semânticos. Como “passar” é verbo, também uma construção oracional “deveria” fechar o poema. O substantivo “passarinho” rompe com tal expectativa. Representa uma impertinência semântica, sugerindo metonimicamente canto, desapego às coisas do mundo, irônica indiferença pelos que tentam pôr obstáculo à trajetória do poeta.

QUESTÃO COMENTADA

(Cespe, com adaptações)
No trecho: “O período que se seguiu à Grande Guerra pode ser decomposto em três grandes fatias: de 1919 a 1924-28, quando todos os países europeus procuraram liquidar os resquícios deixados pela guerra e voltar às condições econômicas normais, equivale dizer, às condições dominantes em 1914; de 1924-28 a 1931-33, com o grande surto de prosperidade, que trazia, no seu bojo, os elementos da crise detonada nos EUA em 1929; de 1932-33 a 1939, quando os governos se empenharam no esforço coletivo para superar a crise, desenvolvendo práticas intervencionistas não adotadas até então.”

O paralelismo sintático seria observado com mais rigor gramatical caso se substituísse “com o grande surto de prosperidade” por “quando se assistiu ao grande surto de prosperidade”. Certo ou errado?

 

RESPOSTA: Certo.
A indicação das três fatias em que pode ser decomposto o período que se seguiu à Grande Guerra apresenta harmonia estrutural. Todas aparecem como enunciados explicativos após a indicação das datas. A essa uniformidade estrutural, porém, não corresponde semelhança de forma. Enquanto a primeira e a terceira são introduzidas pelo conectivo “quando”, e constituem orações, a terceira é iniciada por “com” e aparece como adjunto adverbial. Essa disparidade produz uma quebra de paralelismo.

O QUE CONSULTAR

Uma boa exposição acerca do paralelismo gramatical e semântico encontra-se em Comunicação em Prosa Moderna, do professor Othon Moacyr Garcia (Editora FGV, 2003). O autor destaca a necessidade de se manter a simetria para não só melhorar a estética da frase, como também evitar truncamentos que prejudiquem a clareza. Com exemplos didáticos, mostra alguns dos efeitos da ruptura quando não se observa a equivalência morfossintática dos elementos que figuram nos pares correlativos e nas expressões denotativas (isto é, ou seja, ou melhor, etc.).

O AUTOR Chico Viana é professor aposentado da UFPB, doutor em teoria literária pela UFRJ e autor de O Evangelho da Podridão: Culpa e Melancolia em Augusto dos Anjos