LEITURA

Quatro verdades e uma mentira sobre a literatura digital nos dias de hoje

As formas de consumir conteúdos que estejam fora do meio impresso ainda vivem uma transição; mas já é possível tirar algumas conclusões sobre como essas dinâmicas impactam nos hábitos de leitura

Em 1912, os funcionários da redação do Jornal do Brasil, localizada no Rio de Janeiro (RJ), receberam com espanto as novas ferramentas que fariam parte daquele ambiente de trabalho: três máquinas de escrever. Como lembra o professor e pesquisador Nelson Varón Cadena, em artigo sobre o tema, a chegada do novo aparato, que já era conhecido e ocupava, há anos, as repartições públicas, causou muita polêmica.

Encabeçada por jornalistas veteranos, houve resistência em substituir a caneta bico de pena nas rotinas diárias – e a popularização do recurso em escala nacional na mídia impressa deu-se, apenas, no final dos anos 1920.

O exemplo acima tem como base a imprensa, mas serve para outras transições tecnológicas – uma delas, intrinsecamente ligada à educação, é a relação entre as tecnologias digitais e a literatura.

Para discutir as possibilidades e avanços dos recursos da literatura, convidamos a professora e pesquisadora em leitura digital e multimodalidade, Aline Frederico, para reunir alguns insights sobre o tema e sua aplicação no ensino. A doutora, que é co-fundadora do coletivo Leitura na Tela, selecionou quatro verdades e uma mentira sobre esse assunto.

 

Crianças, jovens, adultos… Todos precisam aprender a ler textos e linguagens do meio digital

 

“É comum escutarmos que ‘as crianças já nascem sabendo operar os dispositivos digitais’, mas as pesquisas mostram que isso não é verdade. Claro: crianças aprendem, muitas vezes, mais rápido que os adultos, mas a leitura digital é muito complexa, envolve muitas linguagens, padrões de resposta, participação e interatividade. Ler um meme não é o mesmo que ler uma obra de literatura digital, que não é o mesmo de ler um infográfico interativo, que não é o mesmo de ler um game etc.”

 

A literatura digital é uma importante ferramenta para ampliar o alcance dos livros

 

“Num país como o Brasil, em que as chances de ter livros são tão desiguais, a questão do acesso é fundamental e há crianças em todo lugar consultando obras de qualidade, por meio de bibliotecas virtuais. Poder ter contato com acervos inteiros com um clique, amplia enormemente o acesso à informação, à literatura e à leitura. As pesquisas também sugerem que a leitura digital atinge seu potencial máximo, especialmente na infância, quando faz uso das possibilidades hipermidiáticas e multimodais, isto é, quando são usadas imagens, animações, som, interatividade, de formas integrada e significativa para transmitir um determinado conteúdo.”

 

Estamos em um cenário novo

 

“Falando da literatura digital mais especificamente, ela traz novas possibilidades de tocar o universo simbólico e sensorial do leitor, de maneiras que não são possíveis com a literatura impressa. O meio digital também possibilita a integração de diversas linguagens e formas de leitura. Exige que o leitor aprenda a ler e a se expressar não só com palavras, mas com imagens, com linguagem audiovisual e em integração e comunicação constantes com a obra e com outros leitores. Ainda é cedo para ter conclusões absolutas e, talvez, nunca venhamos a ter, porque ler no ambiente digital pode apresentar muitas configurações diferentes, o que faz da comparação quase impossível”.

 

Ainda existe um estigma de que os conteúdos em ambiente digital são (ou devem ser) gratuitos

 

“Infelizmente, as pessoas ainda acham que, porque pagam pelos dispositivos, não devem pagar pelos conteúdos. Mas não são as empresas de tecnologia que produzem esse material. Quando acessamos um conteúdo que achamos ser gratuito, geralmente há um custo ‘invisível’ envolvido. Não podemos ser ingênuos, produzir conteúdo digital custa caro e, se ele está ali aparentemente de graça, significa que o estamos custeando sem nos dar conta – seja pela publicidade, pela venda das informações pessoais, dos nossos gostos, hábitos e padrões de uso da internet, muitas vezes sem total conhecimento e consentimento. Precisamos entender que autores, ilustradores, editores, artistas etc., são profissionais que precisam ser remunerados e, se queremos um conteúdo ‘gratuito’, devemos exigir dos nossos governantes o investimento em leis de incentivo à cultura.”

 

A literatura digital vai substituir e tornar obsoleta a leitura no papel

 

“Não acredito que a substituição vá ocorrer algum dia. Apesar de todos os desenvolvimentos tecnológicos desde a revolução industrial, com a fotografia, o rádio, o cinema, a TV e os meios digitais, a leitura em formato impresso permanece porque ela traz uma série de características que os outros meios não apresentam. As pesquisas indicam que, para ler um texto longo e complexo, com muita concentração, o formato impresso ainda é o melhor. Mas a leitura digital tem outras vantagens, como permitir o acesso em locais onde livros e bibliotecas são escassos, por exemplo”.

 

O BOOM DE 2010

 

Por ser um mercado que acompanha de perto, a professora Aline Frederico, que também pesquisa literatura infantil, comenta um fenômeno interessante que o mercado registrou no início da década passada – e que mostra como o contexto da literatura digital ainda não está totalmente estabilizado.

“No início dos anos 2010, com o acesso a smartphones e tablets, houve um grande boom de produção de narrativas digitais para crianças, mas, ao longo da década, muitas empresas fecharam e as obras literalmente desapareceram”, recorda-se.

Ao contrário do que se pensa, a especialista esclarece que é muito mais fácil uma obra do meio digital deixar de existir completamente, do que uma impressa. “O resultado é que hoje temos menos títulos de literatura digital disponíveis do que há cinco anos”, diz.

A pesquisadora observa que apenas as produções de grandes corporações sobrevivem, o que representa uma perda do ponto de vista de acervo histórico e diversidade cultural.

 

UM SEGMENTO, MÚLTIPLAS MODALIDADES

 

A literatura digital possibilita transformações no processo de leitura e consumo de conteúdos que se desdobram em um grande número de caminhos.

“É possível afirmar que hoje temos um mercado de literatura digital em várias modalidades: via plataformas de assinatura e lojas virtuais no cenário B2C (sigla em inglês para o termo ‘da empresa para o consumidor’) e B2B (sigla para ‘de empresa para empresa’)”, explica a gerente Editorial de Projetos Especiais da FTD Educação, Isabel Lopes Coelho.

Na literatura digital, um ponto importante na relação entre o conteúdo oferecido e o público final, está na estrutura de distribuição desse material. “Facilidade de acesso e popularização, infelizmente, não dependem dos produtores, mas sim da estrutura que o usuário tem: uma boa rede, um device de qualidade – temos no Brasil de hoje realidades bem diferentes sobre esse tema”, comenta. Esse tipo de estrutura vai definir qual o formato mais adequado a cada realidade.

 

UMA NOVA LITERATURA

 

Diante do crescente universo tecnológico de combinações e formas de desenvolvimento narrativo, a gerente acredita que estamos vivenciando, de fato, as trilhas de uma nova literatura. “Há algum tempo, já temos denominações para novas possibilidades, como interactive fiction (IF), adventure point and click, que já podem ser consideradas modalidades independentes da literatura linear tradicional”, cita.