CARREIRA

Por que Sabotamos a

Felicidade no Trabalho

A VIDA É MUITO CURTA PARA SERMOS INFELIZES NO TRABALHO. MESMO ASSIM, INÚMEROS PROFISSIONAIS COM LIBERDADE PARA DEFINIR A PRÓPRIA CARREIRA ESTÃO DESMOTIVADOS E INSATISFEITOS. “SHARON” É VICE-PRESIDENTE DE UMA EMPRESA GLOBAL DE ENERGIA E UMA DE MINHAS CLIENTES DE CONSULTORIA. ELA É INTELIGENTE, TRABALHA DURO, SUBIU NA CARREIRA RESPEITANDO AS REGRAS. GANHA MUITO DINHEIRO, É CASADA COM O HOMEM QUE AMA E É MÃE DEDICADA. CONSEGUIU TUDO O QUE QUERIA, MAS NÃO ESTAVA FELIZ. O CLIMA EM CASA ERA TENSO E O TRABALHO JÁ NÃO A SATISFAZIA. ESTAVA CANSADA DE POLÍTICA NO ESCRITÓRIO E NÃO ACREDITAVA NAS INFINDÁVEIS MUDANÇAS TRIMESTRAIS QUE, SUPOSTAMENTE, RESOLVERIAM OS PROBLEMAS DA EMPRESA. RESSENTIA-SE DAS DEMANDAS EXCESSIVAS. AS PROMOÇÕES E O BÔNUS JÁ NÃO A ATRAÍAM, MAS ELA TRABALHAVA COM AFINCO: O ESFORÇO SE TORNARA UM HÁBITO.

 Por  Annie McKee

Sharon culpava os outros pelo seu desencanto. Acreditava que a equipe executiva estava desconectada das atividades do dia a dia. Queixava-se a amigos e colegas de trabalho das más decisões da administração, da estratégia da empresa e do que via como falta de visão por parte da liderança sênior. Todos os membros de sua equipe pareciam acomodados.

Após alguns meses de coaching, passei a gostar dela. Mas até eu achava suas queixas enfadonhas. Posso imaginar o que os colegas de Sharon pensavam. Finalmente, quando terminou de explicar por que os outros eram responsáveis por sua insatisfação, ela disse: “Sei que provavelmente poderia fazer alguma coisa para melhorar a situação. Mas estou muito ocupada. Além disso, não importa se estou feliz ou não. O que importa é que alcancei meus objetivos”. Em seus momentos mais reflexivos, ela admitia que o estresse e a infelicidade estavam afetando seus relacionamentos de trabalho, sua família e sua saúde. Chegou a perceber que seu comportamento se tornava pouco ético. O que ela não percebeu foi a relação entre a crescente infelicidade e a diminuição de sua capacidade de trabalhar de forma eficaz.

Sharon não é a única. Há anos temos ouvido falar dos níveis desastrosos de envolvimento dos funcionários. Numerosos estudos mostram que cerca de dois terços dos funcionários nos Estados Unidos estão entediados, pouco envolvidos ou exauridos, e prontos para sabotar planos, projetos e pessoas. Isso não faz sentido para mim. Por que muitos de nós aceitamos trabalho insatisfatório, altos níveis de estresse, burnout iminente e infelicidade crônica? Por que não lutamos contra isso?

Vários fatores explicam esse mal-estar contemporâneo. A Associação Americana de Psicologia descobriu, no início de 2017, que, mais do que nunca, os americanos reclamam de estresse devido à política, à velocidade das mudanças e às incertezas no mundo. Mas nem sempre são as pressões externas que nos jogam nos braços da infelicidade. Às vezes, nós mesmos fazemos isso. Em minha carreira de 30 anos prestando assessoria a líderes de grandes empresas, governos e ONGs m todo o mundo, descobri que uma armadilha comum é a autossabotagem mentalidade destrutiva e formas de trabalho que nos deixam presos, infelizes e, eventualmente, menos bem-sucedidos. Três das armadilhas mais comuns que levam à autossabotagem— ambição, fazer o que é esperado e trabalhar em excesso — parecem produtivas a princípio, mas são prejudiciais quando levadas ao extremo.


A ARMADILHA DA AMBIÇÃO

O esforço para alcançar metas e promover a carreira nos motiva a dar o melhor de nós. Mas, quando a ambição é combinada com hipercompetitividade e com foco exclusivo na vitória, enfrentamos problemas. Tornamo-nos cegos ao impacto de nossas ações sobre nós mesmos e sobre os outros; os relacionamentos e a colaboração são prejudicados; começamos a buscar objetivos só para atingir metas; e o trabalho perde o significado.

Foi exatamente o que aconteceu com Sharon. Sempre foi encorajada por pais, professores e coaches, e sua vida era repleta de realizações. Tinha boas notas, era escalada para as melhores posições em equipes esportivas e ganhava prêmios acadêmicos. Quando começou a trabalhar, impressionou seus chefes: era impecável até no cumprimento dos prazos.

Seus colegas, porém, não ficavam tão admirados, e alguns se afastavam quando percebiam que Sharon sempre queria ser a número um. Para ela, isso significava que todos os outros ficavam em segundo lugar. Os objetivos da equipe não eram uma prioridade, a menos que atendessem aos seus propósitos, e ela ficou famosa por passar as pessoas para trás.

É evidente que não há nada errado com a ambição. Ela pode até levar ao aprimoramento das habilidades sociais afinal, a colaboração efetiva é um pré-requisito para o sucesso duradouro em organizações complexas. Mas a ambição irrestrita de Sharon focava unicamente em suas próprias metas, e os pares logo passaram a desconfiar dela. E pararam de ajudá-la.

Os desafios no trabalho de Sharon surgiram enquanto ela gerenciava um projeto de alta visibilidade que servia de interface entre sua divisão e um poderoso cliente interno. A estratégia da empresa mudou, os objetivos do projeto mudaram e os padrões do cliente ficaram mais altos, embora o financiamento permanecesse o mesmo. Para Sharon, os pedidos do cliente eram inaceitáveis, e ela respondeu como costumava fazer — transformando a situação em uma competição de ganhar ou perder. Começou a fazer gambiarras para cortar custos, exigiu que sua divisão recebesse grandes aportes de dinheiro, e até disse uma ou outra inverdade para conseguir o que queria.

O chefe de Sharon, que a protegeu por anos, finalmente admitiu o óbvio: ela se tornou um problema em potencial. Foi removida do projeto e colocada de lado. Sua carreira ficou paralisada. O afastamento foi um alerta, e Sharon percebeu que estava solitária e profundamente infeliz no trabalho havia muito tempo. Sua ambição se transformou em armadilha em vez de trunfo. Mas seu comportamento implacável não era inerente, ele fora assimilado: o sucesso no início reforçou uma atitude egoísta que, em última instância, a desestabilizou pessoal e profissionalmente.


A ARMADILHA DO “DEVER”


Fazer o que pensamos que devemos fazer em vez do que queremos fazer é uma armadilha, e nela todos nós podemos cair em algum momento da vida profissional. É verdade que algumas das regras não escritas que moldam nossa carreira são positivas, como terminar o estudo para ajudar a família e ser pontual e educado no trabalho. Mas muitas das normas no trabalho — que chamo de “deveres” — forçam-nos a negar quem somos e a fazer escolhas que minam nosso potencial e sufocam nossos sonhos.

Para serem bem-sucedidas na maioria das empresas, as pessoas obedecem a determinadas regras, como a forma de se vestir, de conversar, as pessoas com quem se relacionar e, às vezes, o estilo de vida fora do trabalho. Em algumas das empresas onde trabalhei, o sapato gasto de um candidato elimina sua chance de contratação, e as mulheres devem usar maquiagem e cortar o cabelo de determinada maneira (geralmente curto). Também estive em empresas em que homem não pode assumir funções de liderança, a menos que seja casado — com mulher. E na Fortune 500, apenas 4% dos líderes seniores são do sexo feminino e menos de 1% são negros. Estas estatísticas chocantes dizem quem “deve” liderar e quem “deve” seguir.

Tais normas tácitas não são apenas infundadas (gênero, raça e estado civil não têm correlação com capacidade de liderança) — também cobram um custo pessoal quando sentimos que devemos esconder quem realmente somos ou fingir sermos quem não somos. Kenji Yoshino e Christie Smith mostraram em um estudo patrocinado pela Deloitte com mais de três mil funcionários que 61% das pessoas acham que precisam, de alguma forma, “disfarçar” para se adequar no trabalho: eles escondem ou minimizam o gênero, a raça, a orientação sexual, a religião, ou outros aspectos de sua vida, identidade ou personalidade.

Em algumas empresas, as mulheres não falam sobre os filhos para evitar a “pena maternidade”. Os afro-americanos geralmente se evitam para não ser vistos como parte de um grupo marginalizado. E 45% dos homens brancos relatam esconder coisas que possam diferenciá-los, como depressão ou filho com dificuldade na escola. Conheci muitos que escondem qualquer coisa que os faça parecer fracos ou vulneráveis — como dificuldades em casa ou burnout — porque acham que devem ser fortes o tempo todo.

Os deveres não afetam apenas a forma como nos projetamos no trabalho. Muitas vezes ditam o tipo de trabalho e de carreira a que aspiramos. É o caso de “Marcus”, outro cliente de coaching. Durante o terceiro e o quarto ano de faculdade, Marcus se envolveu com algumas start-ups, e gostou muito da experiência. Secretamente, esperava continuar no caminho do empreendedorismo, mas, à medida que a graduação se aproximava, começou a vacilar. Recebeu, então, uma proposta de uma consultoria de prestígio e assumiu o cargo. Seis meses depois, percebeu que detestava o trabalho, mas como os pais ainda se gabava m de seu ótimo emprego e salário, e amigos invejosos lhe pediam que os levasse para a empresa, ele achou que não deveria sair.

Aos 42, Marcus se tornou sócio da empresa. Ele seguiu todas as regras e, aparentemente, era um verdadeiro vencedor. Mas o problema é que sua carreira parecia um jogo. Ele enxergava a desconexão que existia entre a missão da empresa e o que ela realmente fazia, mas foi levando. Considerava desumana a forma como as pessoas eram ali tratadas — especialmente as juniores —, mas seguia o padrão mesmo assim.

Marcus não gostava de ser consultor e passou grande parte da carreira escondendo que era gay, casado com um carpinteiro do sindicato. Nunca revelara detalhes sobre sua vida pessoal no trabalho porque era evidente que, na empresa, só os heterossexuais tinham sucesso e, até onde sabia, nenhum cônjuge fazia trabalho manual. Viver escondido torna qualquer um infeliz e, conforme o comprometimento diminui e o desagrado com o trabalho e com os colegas se torna óbvio, o desempenho profissional acaba prejudicado.

Evidentemente, evitar a armadilha do dever não implica ignorar por completo as regras. A não conformidade absoluta e o desvio cultural desafiam até a organização mais inclusiva. Em vez disso, precisamos reconhecer quais regras acabam sendo prejudiciais. A autos supressão e a conformidade diligente não promovem as contribuições mais originais e criativas, nem conduzem à felicidade no trabalho, um ingrediente-chave do sucesso profissional duradouro. Nesse caso, os deveres que direcionavam suas escolhas profissionais fizeram Marcus escolher o emprego errado e esconder sua vida pessoal. As regras às quais pensava dever obediência tornaram-se excruciante mente incômodas e, por fim, comprometeram sua carreira.

EM RESUMO

O ENIGMA:
Por que muitos profissionais que têm a carreira em suas próprias mãos são infelizes no trabalho? Que podemos fazer a respeito?

AS ARMADILHAS:
Muitas vezes adotamos mentalidade destrutiva e formas de trabalhar que nos tornam inseguros e, em última análise, menos bem-sucedidos. Algumas das armadilhas comuns que levam à autossabotagem — a ambição (ganhar a todo custo); fazer o que é esperado e não o que queremos; e o excesso de trabalho — parecem produtivas de início, mas são prejudiciais quando levadas ao extremo.

O CAMINHO ANTERIOR:

Para encontrar a felicidade no trabalho, é preciso aperfeiçoar a inteligência emocional para entender em qual armadilha você caiu. Depois, promover três coisas que, reconhecidamente, aumentam a satisfação profissional: trabalho significativo, esperança persistente e amizades no ambiente profissional

A ambição nos motiva a nos aprimorar e a dar o melhor de nós. Mas nos causa problemas se combinada com foco exclusivo na vitória

A ARMADILHA DA HORA EXTRA

Diante das pressões do trabalho “sempre conectado” do século 21, algumas pessoas reagem passa do c ada momento de vigília trabalhando ou pensando em trabalho. Não temos tempo para amigos, exercícios, alimentos saudáveis ou sono. Não brincamos com nossos filhos, nem mesmo os escutamos. Não ficamos em casa quando estamos doentes. Não reservamos tempo para conhecer as pessoas no trabalho ou nos colocar no lugar delas antes de tirar conclusões.

O trabalho excessivo nos suga para uma espiral de negatividade: mais trabalho causa mais estresse; o aumento do estresse faz com que diminua a velocidade do cérebro, comprometendo nossa inteligência emocional; e menos criatividade e habilidades para lidar com pessoas prejudica nossa capacidade de realização.

O trabalho excessivo seduz porque ainda é enaltecido em muitas empresas. De fato, Erin Reid, da Universidade de Boston, descobriu que algumas pessoas (especialmente homens) mentem sobre as horas de trabalho. Eles declaram mais de 80 horas por semana — presumivelmente por achar que o excesso de horas impressiona o patrão. Além disso, a obsessão pelo trabalho pode ser um reflexo de fantasmas internos, alimentando-se da insegurança, atenuando a culpa diante do excesso de trabalho dos outros, ou nos ajudando a escapar de problemas pessoais. Muitos funcionários sobrecarregados acham que trabalhar mais alivia o estresse: se terminarem o projeto ou o relatório, ou lerem todos os emails, a sensação de descontrole diminuirá. Mas, evidentemente, o trabalho nunca termina.

Isso aconteceu com Marcus. Ele voltava para casa à noite geralmente mais tarde do que o prometido e ficava algum tempo na cozinha conversando com seu cônjuge e perguntando às crianças sobre o dia delas. Enquanto isso, deixava o telefone na mesa. Após dois minutos de conversa, pegava o celular. Achava que sua família não se incomodava, mas, naturalmente, ficavam chateados. Ao longo dos anos, seu cônjuge tentou conversar sobre a preocupação de  Marcus com o trabalho. Ele explodia: “Não tenho opção! O que você quer que eu faça? Peça demissão?”. Depois se controlava e prometia mudar. Mas, após uma pequena remissão, o vício voltava.

Marcus começou a dormir menos, em parte por causa  dos telefonemas na madrugada, e em parte pelo estresse. Não comia bem, e se pegava bebendo demais. No trabalho, era um chefe mal-humorado e distraído. Começou a cometer erros — perder prazos ou esquecer-se de responder emails importantes. Não conseguia satisfazer as expectativas dele mesmo ou dos outros, o que o incomodava tremendamente. Diante disso, esforçava-se mais.

Como Sharon, Marcus recebeu um alerta. Em casa. Uma noite, durante uma das intermináveis discussões sobre o celular, os emails e as chamadas de madrugada, seu companheiro deu-lhe um ultimato: “Isso tem que parar. Assim não dá para continuar”. Isso atingiu Marcus profundamente, e num momento decisivo. Na semana anterior, a chefe dele havia apontado problemas sérios em um de seus projetos. Contou que todos se preocupavam com ele, que parecia estar entrando em curto-circuito, de tão elétrico. E disse o mesmo que o cônjuge: “Isso tem que parar”

Marcus teve dificuldade de admitir que tinha problemas. Trabalho excessivo disfarçado de dedicação fazia parte de sua identidade e, assim como para muitos de nós, parecia mais importante à medida que sua carreira progredia e o ritmo de mudanças aumentava. Empresas planas e enxutas e mercados ultracompetitivos nos obrigam a fazer mais com menos. À medida que a tecnologia avança, passamos a executar tarefas que antes eram de outras pessoas — ou executadas por outros, mas para nós. Para muitos que trabalham em fusos horários diferentes, Chamadas internacionais no início da manhã e no fim da noite agora fazem parte da rotina. E aquele pequeno dispositivo com o qual andamos o tempo todo é um chefe exigente. O trabalho está, literalmente, dentro do bolso ou no criado-mudo.

Se você, como Marcus, caiu na armadilha dos “deveres” ou da hora extra, ou, como Sharon, na armadilha da ambição, a questão é: como sair?. A boa notícia é que mentalidade e as mesmas habilidades de liderança que tornam alguém eficaz podem ajudá-lo a escapar e redescobrir a felicidade no trabalho.

LIBERTE-SE

O primeiro passo é aceitar que você merece ser feliz no trabalho. Isso implica desistir da crença equivocada de que ele não pode ser uma fonte fundamental de satisfação. Em séculos passados o trabalho era simplesmente um meio de evitar a fome. Certamente, muitas pessoas ainda batalham com salários baixos e péssimas condições de trabalho, e este, para elas, é enfadonho. Mas pesquisas mostram que mesmo tarefas servis podem proporcionar satisfação. O que surpreende é que os executivos bem-sucedidos de hoje profissionais criativos e de áreas do conhecimento às vezes não encontram o verdadeiro significado de sua atividade profissional. Em vez disso, caem no mito de que seu trabalho é muito mecânico

O trabalho pode ser uma fonte real de felicidade, que eu defino como uma apreciação profunda e complacente das atividades diárias, alimentada pela paixão por um propósito significativo, uma visão esperançosa do futuro, e amizades verdadeiras. Para abraçar esses três componentes da felicidade, devemos primeiro refletir profundamente sobre as motivações e hábitos pessoais que nos impedem de fomentá-los. Por que trabalhamos o tempo todo? Será que nossa ambição e desejo de vencer nos ajudam ou nos atrapalham? Por que ficamos presos ao que sentimos que devemos fazer em vez de ir atrás do que queremos fazer? Para responder a estas perguntas, precisamos explorar nossa inteligência emocional.

AS COMPETÊNCIAS DA INTELIGÊNCIA EMOCIONALAS COMPETÊNCIAS DA INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

AUTOCONSCIÊNCIA
Autoconsciência
emocional

CONSCIÊNCIA SOCIAL
Empatia
Consciência
organizacional

AUTOGESTÃO
Perspectiva positiva
Foco em realizações
Adaptabilidade
Auto controle emocional

GESTÃO DE RELACIONAMENTO
Liderança inspiradora
Trabalho em equipe
Coach e mentor
Influência
Gestão de Conflitos

Fonte: Becoming a Resonant Leader, de Annie McKee, Richard Boyatzis e Frances Johnston (Harvard Business Press, 2008).

DA AUTOSSABOTAGEM PARA A FELICIDADE

Nas últimas décadas, psicólogos e pesquisadores — eu inclusive — chegaram à conclusão de que existem 12 com petências da inteligência emocional (veja a barra lateral na pág. 45), e todas elas ajudam a evitar as armadilhas da felicidade ou delas se libertar. Acredito que três delas — autoconsciência emocional, autocontrole emocional e consciência organizacional — são particularmente úteis para eliminar um modo de pensar que já não tem utilidade.

A autoconsciência emocional é a capacidade de perceber e compreender os próprios sentimentos e estados de espírito e reconhecer como eles influenciam os pensamentos e ações. É possível perceber, por exemplo, que o desconforto que se sente ao encarar uma tarefa como um “dever” — por exemplo, responder a um e-mail às 20 horas ou no fim de semana — é sinal de que você tem me do de ser excluído . Aprofundando um pouco mais, talvez você perceba que esse medo tem pouco ou nada a ver com sua situação de trabalho atual — pode ser, simplesmente, um velho hábito mental que já não lhe serve.

A consciência é um bom começo, mas depois você precisa agir. Aqui entra o autocontrole emocional: ele permite que você tolere o desconforto que surge quando entende o que faz consigo mesmo. Por exemplo, se você sabe que verifica seu email à noite por insegurança, vai se sentir mal consigo mesmo. Mas, se afastar esse sentimento, você ficará paralisado. O autocontrole também nos permite tomar atitudes que estão fora de nossa zona de conforto. Finalmente, a consciência organizacional — a compreensão do seu ambiente de trabalho — pode ajudá-lo a distinguir entre o que vem de dentro de você e o que vem dos outros ou de sua empresa. Suponha, por exemplo, que você está ciente de que seus colegas leem e enviam emails o tempo todo e que você trabalha em excesso para seguir o padrão — não necessariamente por insegurança. Agora você percebe que tem uma escolha a fazer: resistir corajosamente às normas e parar de trabalhar em excesso, ou continuar se comportando de forma que não condiz com seus valores (prejudicando sua saúde e vida familiar). Talvez você reconheça que atenuar o excesso de trabalho pode até mudar a dinâmica e as expectativas de sua equipe, criando uma microcultura virtuosa no contexto maior da organização.

O excesso de trabalho nos suga para uma espiral de negatividade, fazendo com que o cérebro desacelere, comprometendo nossa inteligência emocional.

LIBERTE-SE DAS ARMADILHAS DA AUTOSSABOTAGEM

Três armadilhas comuns — ambição, “deveres” e excesso de trabalho — impedem as pessoas de ser felizes e realizadas na carreira. Avaliar corajosamente em quais delas você caiu é o primeiro passo para assumir o controle. Comece respondendo a estas perguntas:

1 Quais armadilhas da autossabotagem me mantêm na minha zona de conforto ou fazem com que eu me sinta seguro?

2 Quais armadilhas me impedem de buscar meu sonho de um trabalho melhor, uma ótima carreira e a verdadeira realização no meu emprego atual?

3 Em quais armadilhas eu prendo os outros?

 

Em seguida, escolha a armadilha da autossabotagem que mais o afeta.
1 Como ela ajuda ou prejudica você?

2 Como ela afeta seus relacionamentos? Outras pessoas podem se beneficiar (ou achar que se beneficiam) quando estamos paralisados, ou podem ser prejudicadas. Quem se beneficia da
armadilha em que você está? Quem é prejudicado?

3 Imagine uma vida sem essa armadilha. Como ela seria? O que você faria? Como os outros se beneficiariam se você estivesse livre? Para tornar isso mais claro, escreva três parágrafos como se estivesse no futuro, começando com “Faz três anos que estou livre… Eu me sinto… Agora estou… As pessoas na minha vida são…

OBJETIVO, ESPERANÇA E AMIZADE

Usar a inteligência emocional para remover as barreiras à felicidade é um primeiro passo na jornada para o melhor aproveitamento no trabalho. Mas felicidade não é mágica — devemos buscar ativamente o significado e o propósito em nossas atividades do dia a dia, fomentar a esperança em nós mesmos e nos outros e fazer amizades no trabalho.

SIGNIFICADO E PROPÓSITO. Os seres humanos são programados para buscar o significado de tudo o que fazem, quer estejam sentados em um escritório, fazendo trilha nas montanhas, ou jantando com a família. A paixão por uma causa estimula a energia, a inteligência e a criatividade. A química do cérebro é parcialmente responsável por isso: pes-quisadores demonstraram que quando o trabalho é visto como valioso, ele desperta emoções positivas que nos tornam mais inteligentes, inovadores e adaptáveis. Dan Ariely, professor de psicologia da Duke University, realizou um estudo em que os participantes foram pagos para montar modelos da Lego dos quais alguns foram desmontados na frente deles assim que estavam prontos. As pessoas cujos modelos foram preservados montaram, em média, 50% mais modelos do que aqueles cujos modelos foram destruídos, embora os incentivos monetários fossem idênticos. Damos mais de nós mesmos quando causamos impacto — mesmo que pequeno.

Estudiosos de administração mostraram que o mesmo se aplica ao emprego: o propósito é um poderoso motor de felicidade no trabalho. Contudo, muitas vezes, não conseguimos aproveitar essa fonte de motivação. Assim como aconteceu com Sharon e Marcus, é fácil perder de vista o que valorizamos e ignorar os aspectos do trabalho que nos interessam, especialmente se enfrentamos organizações disfuncionais, chefes ruins e estresse. E se isso acontece, a perda de interesse é iminente. Na ausência de significado, não temos motivos para nos empenhar.

Cada um encontra o significado e o propósito do trabalho de formas diferentes, mas na minha experiência com pessoas de todo o mundo e em todas as profissões, notei algumas semelhanças: queremos lutar por uma causa pela qual nos preocupamos; queremos criar e inovar; queremos consertar os problemas e melhorar nosso ambiente de trabalho; que remos aprender e crescer; e, como demonstram os estudos, o trabalho significativo é possível e importante para o zelador, o gestor intermediário e o CEO.

Conforme você descobre quais aspectos do trabalho o satisfazem verdadeiramente — e quais são profundamente entediantes —, você se vê diante de escolhas sobre como gastar seu tempo e quais objetivos perseguir em sua carreira. Marcus decidiu fazer uma tentativa séria de explorar o negócio que sempre sonhara ter. Estudou os aspectos financeiros e formas de promover o melhor relacionamento possível com sua empresa atual e com seus clientes. Ele e seu cônjuge avaliaram as mudanças no estilo de vida que a criação de uma empresa exigiria. Por fim fez uma ponte: trabalhou em sua empresa por meio período durante dois anos enquanto procurava financiamento e iniciava o novo negócio.

ESPERANÇA. Se você já enfrentou adversidades, crises ou perdas, sabe que é a esperança que permite superar os problemas. É ela que nos faz levantar todos os dias e continuar tentando, mesmo quando a vida é dura. Com esperança, é possível lidar com a complexidade; tratar do estresse, do medo e da frustração; e entender organizações e vidas tumultuadas. Isso acontece, em parte, porque a esperança, como o propósito, afeta positivamente a química cerebral. Pesquisas mostram que quando nos sentimos otimistas, nosso sistema nervoso se torna calmo e pronto para agir, em vez de reagir pelo mecanismo de luta ou fuga. Um estudo demonstrou que quando indivíduos são treinados para despertar sentimentos positivos e uma visão inspiradora do futuro, as áreas do cérebro associadas ao sistema nervoso parassimpático são ativadas: a respiração diminui, a pressão arterial diminui e o sistema imunológico funciona melhor. Pensamos de forma mais racional e somos mais capazes de gerenciar nossas emoções. Sentimo-nos energizados e preparados para planejar o futuro

Foi assim que Sharon, partindo da consciência dos motivos pelos quais ela tanto focava ganhar, conseguiu mudar e criar uma carreira com a qual estava realmente entusiasmada. Graças às conversas que teve com seu marido (que a advertira durante anos sobre sua ambição desmedida), conseguiu elaborar uma visão do que ela queria do trabalho — que não dependia de novas promoções ou de vitórias em um jogo interminável, mas do tipo de vida que queria para si.

Empregadores costumam usar declarações de visão para incutir otimismo e positividade em seus funcionários, mas, infelizmente, nem mesmo as mais bem elaboradas conseguem manter as pessoas esperançosas o tempo todo. Para ser feliz no trabalho, é preciso sentir que as responsabilidadese oportunidades fazem parte de uma visão pessoal — condizente com valores, desejos e crenças do indivíduo — e devemos imaginar caminhos que conduzam a essa visão. Planejamento é a essência da esperança — ele nos encoraja a traçar uma rota, mesmo em face de perspectivas aparentemente terríveis; encoraja-nos a tomar atitudes concretas e práticas condizentes com a forma como queremos que nossa vida e carreira se desenvolvam.

Conheci muitas pessoas no meu trabalho que se afastaram de grandes sonhos, temendo a decepção. Mas não acredito que exista uma falsa esperança. A esperança não é pensamento mágico ou fantasia, é uma experiência emocional poderosa e positiva que desencadeia a coragem, planos bem pensados e ações concretas.

AMIZADE. Se você trabalha com pessoas de que gosta e respeita, e se elas também gostam de você e o respeitam, você provavelmente gosta de trabalhar. Mas se você está em um trabalho em que fica constantemente na defensiva, desprezado ou excluído, você provavelmente caminha para uma infelicidade profunda — se é que já não chegou lá. Mesmo que diga a si mesmo que a situação é tolerável ou que você não precisa de amigos no trabalho, isso não é verdade.

Boas relações são a espinha dorsal de organizações bem-sucedidas. As pessoas que se importam umas com as outras abrem mão generosamente de seu tempo, talento e recursos. A Gallup descobriu que relacionamentos de trabalho próximos aumentam a satisfação dos funcionários em 50% e que pessoas cujo melhor amigo é colega de empresa têm sete vezes mais chances de se envolver plenamente com o que fazem. O respeito mútuo nos motiva a resolver conflitos de modo que todos ganhem. E quando acreditamos que seremos aceitos por sermos quem somos, que temos papéis importantes a desempenhar, e que somos parte de uma equipe, estamos mais comprometidos com os objetivos coletivos.

Relações calorosas e positivas são importantes no trabalho por razões estritamente humanas. Desde os primórdios, as pessoas se organizam em tribos que trabalham e se divertem juntas. Hoje as empresas são nossas tribos. Queremos trabalhar em um grupo ou empresa que nos orgulha e nos inspira a dar o melhor de nós mesmos.

Também queremos que as pessoas se preocupem conosco e nos valorizem como seres humanos. E precisamos fazer o mesmo para com elas. Ficamos bem física e psicologicamente quando sentimos compaixão pelos outros e percebemos que eles também se preocupam com nosso bem-estar. O Harvard Grant Study, entre outros, descobriu que o amor — sim, o amor — é o maior determinante de felicidade. Além disso, aqueles que experimentam o amor — incluindo o amor envolvido nas amizades — são mais bem-sucedidos, até mesmo financeiramente. (O estudo observa que, durante anos de pico de renda, participantes que obtiveram os maiores resultados em “relações calorosas” ganharam uma média de US$ 141 mil por ano.)

Mas e o amor no trabalho? A maioria das pessoas se afasta dessa ideia, cautelosas por causa dos romances no escritório (apesar de sabermos que ele é frequente). O que precisamos no trabalho, no entanto, é amor baseado em cuidado, preocupação e camaradagem. Tais relações estão cheias de confiança e generosidade, são uma fonte de prazer e tornam o trabalho divertido.

Muitos acreditam que se tiverem sucesso serão felizes. Mas é o contrário. O escritor e psicólogo Shawn Achor diz de forma direta: “A felicidade vem antes do sucesso”. Isso porque as emoções positivas suscitadas pelo comprometimento, pela satisfação e pelo sentimento de ser valorizado profissionalmente têm uma série de benefícios: nosso cérebro funciona melhor; somos mais criativos e adaptáveis; temos mais energia; tomamos decisões mais inteligentes; e lidamos melhor com a complexidade. É simples: pessoas felizes funcionam melhor do que as infelizes.

É hora de reivindicar o direito de sermos felizes no trabalho. Para começar, vamos substituir crenças desatualizadas por um novo entendimento do que podemos esperar do trabalho — e uns dos outros. Vamos nos libertar de armadilhas que nos afastam da felicidade. E vamos começar a jornada para a realização focando em descobrir e viver nosso propósito no trabalho, buscar uma visão admirável do futuro e transformar os colegas em amigos reais. Isso nos ajudará a criar locais de trabalho que respeitam nossa humanidade e promovem a decência comum e o sucesso sustentável, em que as ideias, as necessidades e os desejos são importantes — assim como a felicidade.