O gestor e as mudanças do Novo Ensino Médio

A atuação de gestores na implementação das medidas previstas na reformulação em unidades escolares nos Estados e municípios

 

A mudança do Ensino Médio no Brasil foi intensificada pela Medida Provisória nº 746/2016, que originou a Lei nº 13.415/2017. Após sua aprovação, os educadores passaram a refletir sobre como seriam os próximos passos para a implementação do Novo Ensino Médio em todo o território.

Em um patamar de destaque nesse processo, os gestores educacionais passaram a buscar meios, nos mais diversos níveis, de conduzir essa adequação às mudanças previstas.

“As equipes gestoras intensificaram os estudos, discussões, debates e reuniões com o envolvimento dos professores e representação dos alunos na análise das diretrizes da rede com as do âmbito nacional, em vista de uma reestruturação mais impactante, porém, cautelosa e gradativa”, pontua a assessora pedagógica da Sagrado – Rede de Educação, Hirilene Guerra.

Com exemplos de práticas que estão sendo adotadas na rede pública e privada, conversamos com gestores de unidades escolares em diferentes Estados, com o objetivo de trazer o que já foi avançado nesse assunto.

 

Alinhamentos horizontal e vertical

 

Na Sagrado – Rede de Educação, são seis as unidades com Ensino Médio. Desde 2015, foi definido um comitê interno que passou a elaborar diretrizes pedagógicas comuns às mudanças que eram esperadas com a nova legislação.

Entre os anos de 2018 e 2019, a etapa de definição e análise de currículo passou pelo que a assessora pedagógica define de alinhamento horizontal.

“Cada professor se apropriou das diretrizes, competências e habilidades do próprio componente curricular, propostas para as diferentes séries, com o objetivo de avaliar a sequência didática e o nível crescente de exigências e requisitos na passagem de uma série para a outra”, explica.

Num segundo momento, essa discussão passou, então, para o alinhamento verticalizado. “A análise do currículo foi feita de forma ampliada, onde os componentes curriculares por área de conhecimento se convergiram para uma coerência no desenvolvimento do conteúdo programático com ênfase na aquisição das competências”, pontua.

 

As possibilidades da grade

 

Tido como um dos desafios do Novo Ensino Médio, a adaptação da grade para a ampliação da carga horária também esteve no rol de metas da rede, como explica Hirilene. No entanto, os trabalhos prévios de discussão e alinhamento, em especial no ano passado, foram responsáveis pelos ajustes necessários.

As unidades da rede, ressalta, já concentram uma carga horária que supera as 3 mil horas determinadas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Diante do mapeamento de interesses, com base no programa de projeto de vida dos alunos, foi possível desenhar possibilidades de grades. O objetivo, salienta, era o de buscar o equilíbrio entre as 1.800 horas máximas para o conteúdo da base e as 1.200 horas mínimas para os itinerários formativos, projeto de vida e trilhas de aprendizagem.

Nota da redação: a entrevista com a gestora foi realizada no período inicial das medidas de isolamento da Covid-19. Diante do prolongado isolamento social, o calendário da Sagrado – Rede de Educação vai restabelecer as ‘açõespiloto’ assim que as aulas presenciais forem normalizadas.

 

Corpo docente

 

A assessora pedagógica também comenta outra diretriz estabelecida na rede, que foi a avaliação do perfil de cada professor, levando em conta suas competências, habilidades e talentos específicos.

“Identificamos professores com competências e conhecimentos específicos para o conteúdo da BNCC; para desenvolvimento de programas e projetos por áreas de interesse; ou para ampliar a oferta de itinerários formativos e projetos de vida”, cita.

Para o ano de 2021, está programado o início das atividades com a 1ª série do Ensino Médio da Sagrado – Rede de Educação. “Em todas as unidades, serão priorizados os conteúdos da BNCC, o programa de Projeto de Vida e as trilhas de aprendizagem, considerando a maturidade dos alunos e o tempo necessário para que todos tenham clareza das áreas de interesse e dos itinerários formativos, que deverão percorrer a partir da série seguinte”, explica.

A proposta da implementação gradativa também tem foco na realização do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), em seu atual formato, que deve ser prestado pelos alunos que estarão na 2ª e 3ª séries. A previsão é a de que o aluno que ingressa agora, ao final dos anos já deva realizar o Novo Enem, com as provas renovadas para atender às exigências da BNCC.

 

Diferentes públicos atendidos

 

Um ano inteiro de reuniões tiveram como objetivo a discussão das mudanças e implementações do Novo Ensino Médio, levando em conta as características das diversas naturezas de unidades do Estado do Ceará.

A pedagoga do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), Miriam Brasil, também integrou essa comissão, formada pela Secretaria da Educação do Estado do Ceará, com a participação de representantes da rede pública e privada, e membros do conselho estadual de educação.

“A maioria das escolas, institutos federais, unidades particulares, municipais e estaduais do estado já trabalhavam as mil horas anuais previstas na reformulação”, explica.

Das três mil horas previstas para todo o Ensino Médio, 1.200 horas devem ser destinadas aos itinerários formativos. A professora, que é Mestre em Gestão Educacional, explica que nas diversas naturezas de estabelecimentos de ensino, além das opções de itinerários nas áreas de conhecimento ou na formação técnica profissional, há também as opções de itinerários formativos integrados, que combinam mais de uma área.

No caso da realidade dos IFCE, Miriam afirma que esses institutos têm se beneficiado dos investimentos do governo local em educação profissional e cita um exemplo que tem mostrado bons resultados. “Um dos caminhos que já temos como itinerário é o de integrar as propedêuticas com as profissionais – por exemplo, no curso de mecatrônica, incluir a área de ciências; ou nos cursos de turismo, incluir ciências humanas”, exemplifica.

 

Itinerários e possibilidades

 

No Colégio 7 de Setembro, que reúne cerca de mil alunos em suas unidades do Ensino Médio em Fortaleza (CE), a experiência que será vivenciada com os itinerários formativos já acontece nas opções oferecidas aos estudantes.

“Temos quatro modalidades diferentes, que levam em consideração a vocação e o projeto de vida do aluno”, pontua o supervisor geral da instituição, Fabio Delano. Dentre as possibilidades, estão a que trilha os caminhos para o Enem; outras duas para instituições de ponta como o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) e Instituto Militar de Engenharia (IME); e uma opção Internacional.

“Esse último caso é uma diplomação especial internacional, com base no sistema International Baccalaureate, presente em mais de cinco mil escolas ao redor do mundo, que compartilham uma filosofia comum”, comenta.

Na visão de Delano, a reformulação também faz uma transição necessária aos tempos que vivemos. “O jovem do Ensino Médio de hoje é muito diverso, plural, e ele precisa vislumbrar várias opções, não tem mais aquilo de um caminho único”, ressalta.

Sobre os desafios e etapas que vêm por aí, o pedagogo conclui que “se por um lado, o modo de como fazer ainda não está definido, ao menos o modo de pensar essa proposta está avançado – e isso é muito importante”.

Para a pedagoga do IFCE, Miriam Brasil, os agentes que compõem a gestão dessas unidades escolares representam um papel de interlocução nesse processo. “Compete aos gestores essa conversa sobre a implementação, tanto com os professores quanto aos alunos e pais”, afirma.