INOVAÇÃO

DEIXA ENTRAR QUE A CASA É SUA

ESCOLAS ENFRENTAM O DESAFIO DE INCORPORAR NOVAS TECNOLOGIAS E FERRAMENTAS DIGITAIS 

Por Luciana Alvarez

Dentro da biblioteca, adolescentes estudam sozinhos ou em pequenos grupos, acompanhados por livros, cadernos e dispositivos digitais portáteis — entre os quais se destaca o celular. A poucos metros dali, na lanchonete, graças ao wi-fi com sinal de qualidade em toda a escola, a cena se repete — a única diferença é que há também alguma comida sobre as mesas. Na sala dos professores, as pessoas são mais velhas e os laptops mais frequentes, mas novamente o digital e o analógico são vistos lado a lado. “O tablet, o smartphone e o notebook convivem com o papel. Nossa realidade é híbrida”, relata Emerson Bento Pereira, diretor de tecnologia do Colégio Bandeirantes. 

Assim como em outras esferas da vida cotidiana, a tecnologia já se instalou definitivamente nas escolas, roubando espaço de outras mídias e formas de convivência, sem necessariamente acabar com elas. Mas a naturalidade com que hoje as tecnologias digitais e analógicas dividem espaços no Bandeirantes vem sendo conquistada aos poucos, com um esforço coletivo e intencional desde 2014, ano em que a instituição começou a implementar seu plano de se tornar uma escola digital. Para Emerson, um ponto importante da proposta para criar uma mudança de cultura foi nunca impor nenhuma medida de “cima para baixo”, o que só criaria resistências. “A tecnologia tem de servir para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Quando elas percebem isso, elas vão querer usar”, garante.   

Na escola não faltam exemplos de como as resistências fazem parte do processo, e de como elas podem ser vencidas com tranquilidade. “Em toda implementação de tecnologia, 20% das pessoas vão gostar de cara e adotar, 20% vão detestar e reclamar. Os que reclamam estão sentindo uma dor, por isso falam mais alto. Nosso papel é acolhê-los. Mas se queremos que dê certo, não podemos deixar de ouvir os que estão na frente, inovando”, explica o diretor. Ele conta que quando o setor de tecnologia da escola passou a oferecer uma ferramenta de correção digital de provas, poucos professores aderiram. Mas os poucos que experimentaram perceberam rapidamente as vantagens e passaram a ensinar aos demais como usar o sistema. “O tempo de correção foi reduzido em dois terços. A tecnologia passou a fazer uma parte ‘chata’ do trabalho do professor. Hoje quase todos fazem a correção digital”, diz o diretor.  

Mesmo os alunos, que são nativos digitais, estranharam a mudança e, no início do processo de receber as provas corrigidas apenas nos dispositivos digitais, muitos queriam voltar a receber a correção em papel. “Pedimos um voto de confiança, que dessem mais tempo para a novidade. Logo se acostumaram e ninguém mais reclama”, conta.   

Mas, quando se trata de tecnologias, “se acostumar” é uma expressão que deve passar longe. A adesão a uma cultura digital acabou provocando impactos que vão muito além de proporcionar novos suportes para conteúdos didáticos. A tradicional divisão dos alunos por salas de acordo com suas notas — os “melhores” alunos ficavam na turma A, os “piores” na E — foi eliminada.   

Na busca por proporcionar um aprendizado colaborativo, o Bandeirantes uniu os laboratórios de física, química e biologia em um só, e colocou grupos para trabalhar em projetos multidisciplinares de um ano de duração. E, assim, até o sistema de avaliação teve de mudar para essa nova disciplina que surgiu, chamada de Steam (Science, Technology, Engineering, Arts and Mathematics). Os alunos fazem autoavaliação, passam por uma crítica dos pares, além de receberem notas de uma banca que analisa os trabalhos. “Ano passado, o desafio era propor formas de possibilitar a vida em Marte. Os resultados são muito diversos. Teve grupo que trabalhou nas propriedades do solo para poder plantar; outro, que estudou como fazer o posicionamento de satélites”, cita o diretor.  

“A tecnologia precisa contribuir para a democratização do conhecimento “

O caminho de uma escola  tradicional e de elite na capital de São Paulo ilustra o quanto a tecnologia é capaz de transformar profundamente as instituições de ensino, consideradas mais conservadoras em comparação a outros segmentos da sociedade. No entanto, o retrato brasileiro é muito diverso: nem todos seguem no mesmo ritmo, e só alguns colégios têm condições de adotar modelos mais arrojados.

Além da interferência direta nos processos de ensino-aprendizagem dentro das escolas, a tecnologia pode influenciar a qualidade da educação ao otimizar os processos de gestão ou melhorar a qualidade da formação docente. É como pensa Vera Cabral: “Na prática, a tecnologia já está formando os alunos. É hora de investir na formação de professores para o uso da tecnologia — e por meio do uso de tecnologias”. A curadora de conteúdos da Bett Educar (maior feira internacional de educação da América Latina) defende ainda que a incorporação as tecnologias está mudando a própria concepção do papel da escola. “O foco muda do acúmulo de conteúdos para desenvolvimento de competências. É uma mudança profunda de cultura que estamos vivendo”, complementa.

 

SOMBRA DA DESIGUALDADE

O poder de processamento de um celular de ponta da atualidade é maior do que o dos computadores da Nasa dura nte a missão Apolo 11, que levou o homem até a Lua. Eles, contudo, não resolvem a questão do acesso, ainda que sejam onipresentes em quase todas as classes sociais. “Precisamos ter muito cuidado para não aprofundar ainda mais a distância que já existe”, afirma Lúcia Dellagnelo, diretora presidente do Centro de Inovação para Educação Brasileira (CIEB). Ela defende que as escolas devem oferecer outros equipamentos aos estudantes, para que eles saibam operar diferentes tipos de dispositivos com familiaridade. “Todo estudante precisa trabalhar com as múltiplas telas. Se você falar que para uma rede é só o celular, mas para outras há tablet, laptop, realidade virtual, você cria uma nova divisão”, diz. E a conexão de qualidade é uma questão imprescindível ainda longe de ser resolvida.

Equipamentos e conectividade são pontas visíveis da carência tecnológica, mas há mais elementos que precisam ser envolvidos na equação. É importante vontade de aderir às tecnologias e planejamento para promover uma mudança sistêmica e multidimensional. “Existem inúmeros exemplos de professores, experiências exitosas de algumas escolas. Mas a tecnologia ainda não trouxe as mudanças sistêmicas. A tecnologia tem de trazer inovação pedagógica, novas formas de aprender e ensinar. Não adianta apenas reproduzir as práticas tradicionais”, explica Lucia.

Ainda que o caminho das políticas públicas para a tecnologia  pareça árduo, certos passos na direção certa já podem ser comemorados. Em novembro o governo federal lançou a Política de Inovação Educação Conectada, que prevê planejamento e repasse de verbas para aumentar a conectividade, e disponibilizou um novo portal com materiais de apoio. A última versão da Base Nacional Comum Curricular também foi mudada para incluir uma visão mais contemporânea. “Fizemos um trabalho forte de advocacy [processo organizado e planejado de informar e influenciar tomadores de decisão]. Mostramos que todos os países que fizeram reformas em seus currículos nos últimos cinco anos deram grande peso à cultura digital. Originalmente, a competência 5, que tratava de tecnologias, dizia que os estudantes deveriam compreender e utilizar. Não era suficiente para formar um cidadão produtivo para o século 21”, avalia Lúcia. 

O texto final da BNCC descreve a competência como “compreender, utilizar e criar” tecnologias digitais de forma “crítica, significativa, reflexiva e ética”. Independentemente de ser da rede pública ou privada, Lúcia acredita que todos têm a ganhar com um aprendizado crítico e reflexivo sobre a tecnologia. “No escândalo da Cambridge Analytics [empresa que coletou dados de milhões de usuários do Facebook para fins políticos], as pessoas voluntariamente deram seus dados ao responder um quiz. Há um uso irresponsável das redes sociais por parte dos professores e dos jovens, que não sabem as consequências no presente e no futuro. A escola precisa preparar as pessoas para entender as implicações de suas ações no mundo digital. A prática reflexiva a respeito do mundo digital é uma habilidade a ser desenvolvida a cada dia, que vai ter impacto forte na vida de todos”, defende. 

Até mesmo grandes empresas parecem preocupadas em cuidar para que o abismo educacional não se alargue. A Microsoft tem parcerias com secretarias de Educação, como a do Estado de São Paulo, e o Centro Paula Souza, que coordena as escolas e faculdades técnicas públicas paulistas. “A tecnologia precisa contribuir para a democratização do conhecimento. É uma de nossas bandeiras. Por isso oferecemos acesso gratuito aos estudantes de escola pública às mesmas tecnologias e ferramentas usadas nas escolas de elite, nas grandes empresas. Acreditamos que, se você os habilitar igualmente, esse vão diminui”, afirma Antonio Moraes, diretor de educação da Microsoft.

Há cerca de um ano e meio, além de oferecer o acesso gratuito, a empresa criou uma equipe de consultoria educacional, formada por professores, para ajudar escolas e redes a aplicar a tecnologia nas aulas. “A gente não atinge os alunos sem passar pelos professores. Percebemos que os docentes precisam ser capacitados tanto para operar as ferramentas, quanto para entender o valor da tecnologia para a educação. Essa ação de consultoria tem uma grande receptividade”, afirma Moraes.

Com acesso e consultoria garantidos, não faltará aos jovens o entusiasmo para se apoderar desses novos conhecimentos, ainda que fiquem a cada dia mais complexos, acredita o diretor da empresa. “A tecnologia atrai os jovens. Ela os engaja porque podem usar a criatividade, trabalhar em grupos, se divertir. É uma forma de o professor estimular o acesso a conhecimentos.”  

NOVAS FORMAS DE PENSAR

ALGORITMOS, PERSONALIZAÇÃO, HUMANISMO, ENSINO TRILÍNGUE, FLUÊNCIA DIGITAL: A LISTA É LONGA…

Lúcia Dellagnelo, do Cieb, defende que o conceito de algoritmo esteja presente em todas as escolas. “O pensamento computacional é olhar um problema e saber quebrá-lo em diferentes componentes, depois criar uma representação que automat i ze a respost a . Computar é uma competência humana, uma habilidade mental. O computador só faz as contas”, explica. A capacidade de decompor um problema e representá-lo é algo que todo ser humano tem, mas não tem sido muito trabalhado pelas escolas. “Todo mundo é capaz, precisa se sentir um criador. Uma lógica importante para lidar com a vida.”

Ainda que seja uma característica eminentemente humana, a convivência com os dispositivos tecnológicos tende a influenciar a forma de pensar. Portanto, precisam ser usados com intencionalidade e responsabilidade. “A forma como interajo, registro, pesquiso é outra nos meios digitais. É, portanto, uma ferramenta de pensamento, que muda o processo de cognição”, afirma Márcia Padilha, criadora do programa Criamundi de formação docente. “Os especialistas em educação precisam se apropriar das tecnologias e fazer com que elas trabalhem a serviço dos seus objetivos.

Segundo Márcia, as ferramentas digitais põem o aprendente e o ensinante em outros papéis, o que faz o jeito de estudar ser outro. A reorganização de tempos, espaços e funções permite a personalização do ensino. “Personalizar o tempo significa permitir que cada um avance no seu próprio ritmo. Personalizar os recursos é deixar que cada estudante aprenda da maneira que preferir. Alguns vão aprender certos assuntos pesquisando, outros debatendo, entrevistando especialistas, etc. Por fim, até o conteúdo pode ser personalizado, em vez de todos aprenderem as mesmas coisas”, diz Márcia.

Ao se propor a oferecer metodologias personalizadas, o professor muda o papel em sala; ele vai para dentro de sala de aula para interagir com os estudantes, não para expor conteúdos. “Mesmo se você continua em um currículo padronizado, pode dar um espaço de respiro para as crianças”, completa.

Em escolas que já nascem imersas na cultura digital, a tendência é desenvolver nos alunos desde a mais tenra idade a capacidade de “falar” a língua dos computadores. A Concept e a Avenues, que inauguram unidades em São Paulo este ano, são escolas que se denominam “trilíngues” por promoverem a fluência não só em português e inglês, mas também a fluência digital. “É mais do que aprender uma linguagem de programação: é saber escolher ferramentas e desenvolver tecnologias se entender que precisa de algo novo. A criança vai desenvolvendo o raciocínio sequencial, aprende a planejar etapas para chegar a um objetivo, e, depois, quando precisar, pode aplicar essa lógica dentro de uma linguagem de programação”, explica Priscila Torres, diretora da Concept.

A chamada fluência digital também é uma forma de valorizar a ação e a autoria dos alunos, assim como incentivar a pesquisa aprofundada em fontes variadas. “Nossos alunos do 9º ano estão desenvolvendo um projeto sobre manejamento de lixo que será aplicado na nossa sede de São Paulo. Para isso, eles precisam pesquisar, entrevistar especialistas, visitar outras instituições, testar. Usam múltiplas fontes”, conta Lia Muschellack, diretora de tecnologia da Avenues. Em um mundo digital repleto de fake news e roubo de informações, entender a importância das fontes é uma das formas de navegar com mais segurança.

EAD NA EDUCAÇÃO BÁSICA

PROPOSTA DE AUMENTAR CARGA HORÁRIA DE ENSINO A DISTÂNCIA FOI RECEBIDA COM SEVERAS CRÍTICAS — QUE NÃO IMPEDEM VER OS ASPECTOS POSITIVOS DESSE MÉTODO

As formas como a tecnologia deve ser usada na educação básica atiçam polêmicas que parecem longe de terminar. Recentemente, o Conselho Nacional de Educação estudou uma proposta para estabelecer um limite da carga horária da etapa do ensino médio que poderia ser oferecida a distância (EAD). Seria uma maneira de oferecer trajetórias diversificadas para alunos mesmo de cidades pequenas onde há somente uma escola, além de poder suprir a falta de professores de determinadas disciplinas. Mas a ideia foi mal recebida por educadores do governo e de fora dele.

Betina von Staa, responsável pelo CensoEad.Br da Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed), é uma das vozes a criticar com veemência esse tipo de regulamentação. “No ensino médio, os alunos têm de estar juntos, na escola, aprendendo a dialogar. Iniciativas para estudar de casa só devem ser cogitadas em casos de necessidade absoluta e para alunos mais velhos, do EJA (educação de jovens e adultos)”, afirma. Ela, contudo, é uma entusiasta do uso da tecnologia na escola. “O modelo que precisamos adotar é o híbrido, usando o suporte que faça sentido para cada ação, sem tentar separar o que é presencial e o que é a distância.”

Segundo Betina, o limite legal para cursos presenciais, que podem oferecer no máximo 20% da carga horária em EAD, foi extremamente prejudicial para o ensino presencial, que acabou estagnado. “Os gestores começaram a achar que não podiam usar tecnologia no presencial, porque poderia se configurar como EAD. Desvirtuou a busca pela qualidade e ficou todo mundo olhando só para esses números”, critica. Ela teme que o ensino médio siga pelo mesmo caminho.

“Tecnologia educacional a gente usa de acordo com a situação, caso a caso. Não se pode colocar todo mundo na frente de uma tela, porque não funciona. Mas tampouco existe um número mágico do quanto de estudo pode ser feito em casa”, diz Betina. Portanto, a adoção de metodologias EAD não prejudica o estudante caso seja bem feita, com propósito e supervisão. “Primeiro temos de saber qual é a proposta. Se é para que todos aprendam física com um professor graduado, um único professor pode dar aulas para o país inteiro, com a mediação de um tutor em cada escola. Se é para aprender ciências de forma experimental, vou precisar de alguém orientando localmente”, cita. Mas, se o objetivo é apenas decorar conceitos e regras, basta um aplicativo e o estudante pode ficar em casa mesmo, ironiza. “Mas não é isso que a gente quer”, diz em seguida. Em compensação, um projeto colaborativo de geografia pode ganhar mais diversidade se, por meio da tecnologia, envolver estudantes de várias partes do país.

O Cieb faz um trabalho para sistematizar o processo de inovação, de forma a ajudar os gestores públicos a incluir novas tecnologias nas redes para contribuir na melhoria do processo de ensino-aprendizagem. Uma implementação de sucesso precisa dar conta de quatro fatores.

1 VISÃO
Saber com qual finalidade a rede vai usar a tecnologia, como e por que integrá-la no currículo

2 COMPETÊNCIA
Os profissionais precisam ser capacitados para desenvolver as competências necessárias

3 RECURSOS EDUCATIVOS
Deve haver disponíveis materiais digitais de qualidade para que o professor possa selecionar

4 EQUIPAMENTO E CONECTIVIDADE
Nada vai funcionar sem os dispositivos adequados e uma internet de banda larga

PARECE FICÇÃO, MAS É ESCOLA

PASSEIOS PELO MUNDO E PELO PASSADO

O estudante pode estar dentro da sala de aula de todos os dias, mas graças ao chamado 4D+, visitar o mundo pré-histórico e ver dinossauros. Tudo se movimenta com as características de como seria na realidade, o que permite desenvolver habilidades como observação, comparação, classificação. “A realidade aumentada traz a possibilidade de investigação para a sala de aula que não seria possível de outra forma”, explica a diretora acadêmica da Be – Bilingual Education, Flávia Fulgêncio. Além da chamada realidade aumentada, a Realidade Virtual (VR, virtual reality, em inglês) é outra ferramenta que passou a integrar o leque de estratégias de promoção para o aprendizado do inglês: o aplicativo VR do Google Expeditons leva o aluno a explorar diversas partes do mundo e, a partir dessa experiência, estimula o aprendizado de um segundo idioma, garantem os criadores da metodologia.

 

CONVIVENDO COM ROBÔS…

Faz tempo que eles já vivem entre nós: fabricam os mais variados produtos que consumimos, nos atendem em serviços de telemarketing, aspiram o chão de alguns lugares sem depender de supervisão humana constante. Se no imaginário popular há um temor de que os robôs um dia substituam a humanidade, nas escolas há um entendimento crescente de que os estudantes precisam aprender a dominá-los. Assim, a presença de aulas de robótica dentro de instituições de educação básica vem crescendo e se diversificando. A empresa Mundo4D aposta na adoção de robôs e na oferta de praticidade. Para facilitar a vida dos gestores, leva um laboratório portátil para dentro das dependências escolares, que pode ser usado por crianças a partir de 4 anos. “As escolas têm consciência da importância da inserção do ensino das competências do século 21 no panorama infantil”, afirma André Emil Getschko, fundador da empresa.

 

… E SE DIVERTINDO COM ELES

Os robôs podem ser muito úteis no cotidiano, claro, mas também podem servir apenas para o lazer. Uma das mais tradicionais empresas de robótica educacional do Brasil, a Zoom Education for Life, está lançando alguns projetos competitivos para os robôs feitos pelos estudantes. São as oficinas de Torneio de Futebol de Robôs, de Corrida de Carros e de Conquista Espacial. Cada uma dessas oficinas terá um apoiador de destaque no mercado, de acordo com o seu know-how. Na Oficina de Torneio de Futebol de Robôs, por exemplo, o Instituto Projeto Neymar Jr., em Praia Grande, litoral de São Paulo, patrocinará e sediará uma competição entre os robôs-boleiros dos alunos. “Estamos lançando uma nova plataforma de relacionamento com as escolas, que vai muito além do contexto do currículo escolar e do contraturno. São experiências imersivas, rápidas e inspiradoras”, diz Rafael Bonequini, diretor da Zoom. Mas ainda que as lesões robóticas possam ser rapidamente arrumadas com soldas e parafusos, Neymar já avisa que nenhum robô v substituí-lo em campo.

 

TUDO CONECTADO

Para o mundo de amanhã, quando os hoje estudantes terão de se tornar pessoas economicamente produtivas, dominar os robôs e se divertir com eles ainda parece pouco. Será preciso receber informações e dar ordens a distância para todos os objetos que nos cercam, de câmeras de segurança a geladeiras, de impressoras a cafeteiras, e sabe-se lá mais o quê. Assim, outro conteúdo que passa a entrar nas grades escolares é a Internet das Coisas, ou IOT, sigla para a expressão em inglês Internet of Things. A Happy Code, escola de tecnologia que já se destaca por oferecer programas pioneiros para Youtubers e Robótica com Drones, está lançando cursos desta nova categoria. A empresa garante que o curso “Internet das Coisas” promove um aprendizado prático e divertido, que desenvolve também a criatividade dos alunos. Outra empresa que passa a incluir IOT em seu portfólio é a Microduino, que usa a nova versão do software Scratch para conectar os objetos ao redor.

 

TUDO “PENSANDO” SOZINHO

Blocos de montar podem ser programados para executar tarefas de forma autônoma. Podem ser conectados à internet para enviar dados que coletaram e receber novas instruções. E a última fronteira é fazê-los pensar sozinhos. Mas um sistema de Inteligência Artificial (IA) precisa primeiro que alguém lhe ensine a tomar decisões. Antes que um humano possa ensinar a “máquina”, ele precisa aprender como fazer isso. Mais uma vez, parece que cabe às escolas o papel de ensinar quem vai ensinar o computador a pensar. Empresas terceirizadas já começaram a responder a tal expectativa. Nos cursos da Happy Code, os estudantes passarão a fazer uso prático do Watson, a plataforma de IA da IBM. A Microduino também incluiu em seus programas exemplos de aplicações focadas em Inteligência Artificial. O mundo está ficando mais complexo – e as escolas também.

MOVIMENTO MAKER:

ALUNOS SE TORNAM PRODUTORES DE CONHECIMENTOS E OBJETOS

Tendência crescente em todo o mundo, o movimento maker já está mudando a realidade de algumas escolas brasileiras, e tem o potencial de mudar muitas mais. O barateamento de tecnologias como impressoras 3D e cortadoras a laser permite que dentro de laboratórios pequenos sejam fabricados objetos que, até há pouco tempo, só podiam ser produzidos em linhas de montagem industriais.

Luciano Meira, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e sócio-fundador da Joy Street, afirma que o movimento maker na educação vai muito além da aplicação de tecnologias para fabricar novos produtos imaginados pelos estudantes. Para ele, se trata de mudar a própria concepção de escola. “O conceito é o de superar o modelo de escola dogmática, que transmite conhecimentos — mas o caminho ainda é longo”, afirma. Uma escola verdadeiramente maker faz com que as crianças e jovens identifiquem problemas relevantes e busquem soluções de forma colaborativa.

Portanto, transformar o modelo de escola vai bem além de instalar um laboratório sofisticado. Assim, uma escola que deseja aderir de forma plena ao movimento maker deve organizar cenários de aprendizagem que permitam participação e autoria por parte dos alunos. “Se não estiver a serviço de uma cultura de autoria, de resolução de problemas e desenvolvimento de projetos, o laboratório não faz a diferença. Não adianta mandar os alunos uma vez por semana para fazer “chaveiros”, sem relação com o restante do que acontece na escola”, explica o professor.

Quando o trabalho é bem feito, os alunos desenvolvem criatividade, pensamento crítico, práticas argumentativas, capacidade de trabalhar em equipe, entre outras competências essenciais para a cidadania do século 21, garante o estudioso. Para dar certo, o investimento principal deve ser nas pessoas que vão orientar o uso da tecnologia, recomenda o professor.

Para escolas com poucos recursos, uma ideia é procurar envolver os professores da disciplina de artes. Em geral, eles estão acostumados a desenvolver produções com sentido para os alunos, a partir de materiais muito simples. “O objetivo das produções de artes costuma ser o estético, mas é possível adotar essa lógica para temas transversais, objetivos de outras disciplinas”, garante o palestrante.

“A cultura maker tem como princípio o aprender a partir de sua própria experiência prática. Você aprende pesquisando, levantando hipóteses, testando, compartilhando as descobertas e informações”, explica Ivan Ipólyto, gerente de novos negócios da empresa Viamaker. Assim, passo a passo, os estudantes vão ganhando resiliência frente às dificuldades e cultivando laços entre eles.

Outra transformação que decorre das práticas da cultura maker é o maior engajamento dos alunos. “Através da conexão emocional e afetiva da construção de sua própria ideia, a criança se envolve com os conhecimentos, comportamentos e hábitos envolvidos no processo”, diz Diego Thuler, da Little Maker. Por isso, um dos pilares da metodologia da empresa é permitir que os estudantes escolham com o que trabalhar. “A livre escolha do projeto traz engajamento, sentido e propósito para a criança ou jovem”, explica.

“Para conseguir de fato mudar a cultura de trabalho dentro de toda a instituição, não basta vontade: é necessário planejamento e preparação, processo que cabe ao gestor encabeçar. Assim, o primeiro passo, antes de qualquer mudança, se anunciada, é preparar a equipe”, recomenda Luis Laurelli, diretor de Relações Institucionais da Mind Lab, empresa que oferece metodologias para ampliar os potenciais de aprendizagem por meio da integração de jogos de raciocínio à grade de aula.

“Não só os professores, todos precisam de formação e envolvimento. Se a gestão não ouve os professores, ou não os prepara para trabalhar com algo novo, não vai virar uma prática”, afirma. Nesse caso, as famílias em pouco tempo percebem a desconexão entre o discurso e a prática. Contudo, quando todos os que trabalham na escola estão alinhados, os alunos logo sentem a diferença e se engajam no processo — levando as famílias a compreender na prática a proposta pedagógica. “Dessa forma, o projeto se torna um movimento verdadeiro, não uma ação isolada”, diz Laurelli.