Retórica

IMPROVISO PLANEJADO

PARA O NEUROCIENTISTA FERNANDO LOUZADA, É PRECISO QUE O MUNDO DA EDUCAÇÃO ROMPA COM A TENDÊNCIA DE SEPARAR OS FENÔMENOS BIOLÓGICOS DOS CULTURAIS, COMO SE NÃO FOSSEM INTER-RELACIONADOS

Por Rubem Barros

Apalavra é “amor”. Você vai improvisar durante dois minutos. O comando é dito pela professora, e os dois homens em um pequeno palco começam a discorrer nervosamente sobre o tema. A expressão corporal muda o estado de conforto. Agora eles estão tensos e, mesmo sem perceber, balançam de um lado para o outro, para frente e para trás, enquanto procuram por palavras.

A cena é parte de um curso de oratória do Clube da Fala, no Rio de Janeiro, em um dos diversos exercícios que os alunos fazem para desenvolver a habilidade de improvisar na retórica. A sala vai enchendo progressivamente, e chega a vez de novos pupilos encararem o palco. Primeiro sobe um rapaz de 16 anos, que precisa passar em um exame de proficiência em alemão e, tímido, teme não conseguir por causa da avaliação oral.

Nós demos a tarefa para ele contar histórias na sala de aula e de começar conversas com estranhos no metrô – conta Laila Wajntraub, a professora do curso.

PREPARAÇÃO

Fonoaudióloga e especialista em oratória, Laila pede a uma advogada aspirante a filósofa que se junte ao garoto no palco e descreva o medo de improvisação que a levou a buscar as aulas:

– Meu coração dispara e me sinto como se tivesse subido uma escada de muitos degraus, fico ofegante

O improviso, seja ele no discurso, na escrita, na prática profissional, no cotidiano cidadão ou em manifestações artísticas, amedronta muita gente, não só os tímidos. Paira no imaginário coletivo a imagem de um orador eloquente que possui as palavras certas na ponta da língua, como se detentor de um dom. A ideia de comunicar-se com eficiência sem preparação prévia é, no entanto, uma falácia.

Especialistas mostram que, por trás da maioria dos improvisos de sucesso, há estudo, planejamento e preparação, que foram incorporados à bagagem de conhecimentos do orador ou redator e antecedem o momento da improvisação. É em busca disso que cada vez mais pessoas têm se inscrito em cursos de oratória, teatro e comunicação empresarial.

ESTEJA BEM INFORMADO
Um bom improvisador coleciona conhecimentos e experiências anteriores de que pode lançar mão quando precisa. Assim, o que parecerá um coelho tirado da cartola é, na verdade, um acesso ao banco de dados mental.

A ENTREVISTA DENTRO DA ENTREVISTA
Estude um jornalista de rádio ou TV entrevistando uma pessoa. Depois, tente imaginar-se fazendo suas pró- prias perguntas ao entrevistado. As básicas são fundamentadas em: o que, quando, como, por quê, onde e quem. A partir disso, aprofunda-se o assunto. É interessante também imaginar-se no lugar do entrevistado, e tentar responder de improviso às questões do jornalista.

SEM ILUSÃO
– Na vida nós improvisamos diariamente, por mais que programemos nosso dia. O improviso traz a possibilidade de conviver com o imprevisto com mais naturalidade, em vez de ficarmos bravos –, diz o palhaço e ator Márcio Ballas, diretor artístico do Clube do Humor, que oferece cursos de improvisação para amadores em São Paulo.

Os alunos, na maioria, não são atores nem desejam ser, mas buscam desenvolver a habilidade e o jogo de cintura para improvisar.

– O curso ajuda as pessoas a serem mais disponíveis com o que ocorre com elas e aprenderem a jogar com isso – explica Ballas.

Renato Raoni Affonso é uma dessas pessoas que buscaram um curso para desenvolver sua capacidade de improvisação, ofuscada pelo medo de se expor em público. No seu caso, a urgência de trabalhar essa faceta surgiu por conta da necessidade de defender sua dissertação de mestrado.

– No curso aprendi técnicas para falar com mais segurança. Por mais que você tenha uma fala decorada, não vai lembrar de tudo. Então é normal que tenha de improvisar – afirma o aluno do Clube da Fala.

FAÇA O TESTE DO MINUTO
No Clube da Fala, Laila Wajntraub cria situações que chama de “argumentação sob pressão”, para fazer com que alunos exercitem a improvisação. Daí um pequeno palco, plateia, câmeras e microfones. Laila dá um minuto, às vezes mais, para que a pessoa improvise sobre um tema.

DESLIZE INCORPORADO
A defesa da dissertação foi um sucesso, e Renato, agora mestre em Ciência e Tecnologia Nucleares pelo Instituto de Engenharia Nuclear, afirma que o improviso surgiu naturalmente em seu discurso porque ele já havia praticado muito.

Sandro Huguenin, sócio de Laila no Clube da Fala, comenta que essa habilidade de improviso está muito mais conectada à realidade do mercado de trabalho e das relações pessoais do que à ilusão de que tudo pode ser 100% previsto e preparado.

– Em uma reunião de trabalho, por exemplo, o profissional vai ser constantemente questionado sobre assuntos com os quais não necessariamente contava – avalia Sandro.

O compositor Sérg io Kafejian, professor de música na Faculdade Sa nt a Marcelina e autointitulado “improvisador”, observa que há lições que a música ensina sobre a improvisação e as pessoas podem levar para suas vidas. Afinal, assim como no registro oral e escrito, o improviso na música tem à disposição uma série de sonoridades (no lugar de palavras) que precisam ser articuladas.

– Você estuda o improviso com a prática. Na hora da improvisação, cada músico chega com um arsenal próprio que, quando entra em contato com o do outro, cria coisas imprevistas com as quais eles precisam decidir na hora o que fazer. Acho muito interessante na improvisação esse poder de decisão rápido. Você sempre precisa resolver algo naquele momento.

CONTE UMA HISTÓRIA
Narrar histórias testa nossa capacidade de improvisação. Podemos falar uma palavra ou tema e pedir à pessoa que desenvolva uma história fictícia ou absurda, ou conte algo que já ocorreu com ela. Outro exercício é que cada um continue a narrativa do outro de onde ele parou, inventando a própria parte. Há, ainda, o diálogo de A a Z, em que uma pessoa começa uma frase com a letra A e a outra precisa continuar com a letra B, e assim sucessivamente.

– Com estruturas de contação de histórias, uma empresa pode fortalecer sua imagem conseguindo vender melhor seus produtos. Essa estrutura cria empatia com o público, envolve as pessoas em uma emoção, e o discurso tem mais impacto – diz o professor de comunicação verbal Reinaldo Passadori, que aplica a técnica em cursos.


-O IMPROVISO NA SALA DE AULA

Cristiane Néri Horta ensina o improviso por escrito à 5ª série do fundamental, em suas aulas de língua portuguesa na Fundação Torino, em Belo Horizonte. O objetivo, diz ela, foi tirar o peso da aula de redação e mostrar que se pode ser contador de histórias, pois a escrita pode registrar o dia a dia. A professora mantém as aulas planejadas, mas abertas à intervenção e mudança de rumo dos alunos. Em uma delas, mostrou uma série de filmes, para que os estudantes criassem um texto ao fim da aula. Mas eles propuseram escrever um roteiro de filme para, depois, transformá-lo em animação stop motion. Cristiane adotou a ideia.

– Um professor sempre planeja a aula, mas ela nem sempre é bem aceita, precisa-se de um plano B. O improviso entra na sala de aula quando preciso adaptar o que planejei ao que o aluno traz.

Eu poderia falar que não era meu objetivo, mas conduzi o desejo deles, discutindo que tipo de texto o roteiro poderia ser, o tipo de discurso que poderíamos usar, e assim por diante.

OFEREÇA PRODUTOS IMAGINÁRIOS
Outro exercício de improvisação é tentar vender um produto, imaginário ou não. Quanto mais pessoas o improvisador atrair com o seu discurso, mais sucesso conseguiu.

CRIE TESE, ANTÍTESE E SÍNTESE
Passadori gosta de propor a seus alunos um exercício de dialética: com tese, antítese e síntese. Dado determinado tema, a pessoa precisa improvisar da seguinte maneira: primeiro defender um argumento, depois colocar as ideias contrárias a ele e, por fim, fazer um resumo dos principais pontos positivos e negativos

EM PÚBLICO

E o que fazer ante um deslize ou um discurso desafinado? Incorporá-lo. Segundo Kafejian, pequenos erros na verdade não são erros, mas formas de potencializar a improvisação. O “destemperamento”, diz ele, faz parte da linguagem, e precisa ser absorvido e transformado de algo inesperado a esperado.

O palhaço Ballas trabalha com o erro como um dos princípios da improvisação. Segundo ele, quando alguém faz uma tentativa e isso dá errado, precisa ver o resultado daquilo e alterar a rota, levando o deslize em consideração.

– O público adora quando a cena dá errado, vai ao delírio, porque quer ver essa capacidade de adaptação de quem está se apresentando.

Isso não é uma realidade apenas nos palcos e picadeiros. Ballas conta que muitos de seus alunos fazem o curso porque desejam expressar-se e improvisar com naturalidade em público.

– Em uma palestra, se a pessoa erra, fica mal, pede desculpa, e aí fica tensa e o público, vendo-a tensa, fica tenso também. A pessoa precisa brincar com aquilo, autorridicularizar o episódio, porque então o público vira seu cúmplice – ensina o ator.

Ballas participou do espetáculo Caleidoscópio, no Tuca Arena, em São Paulo, com foco na improvisação. Nos primeiros dez minutos de peça, o elenco colhia informações da plateia, e em seguida apresentava uma peça baseada nesses dados, feita exclusivamente sobre e para aquele público.

VAIDADE DO ERRO

O grande problema dos que querem aprender a improvisar, segundo a psicóloga Joana Barbosa, é não lidar bem com a imperfeição. Atriz, diretora e palhaça, Joana é também professora do curso O Clown Dentro de Mim, que atendemuita gente que não é ligada às artes cênicas.

– Quanto mais a pessoa se desapega do acerto, mais consegue improvisar – afirma Joana.

A psicóloga avalia que, ao se trabalhar algo indefinido, há o risco de errar, e as pessoas “ficam vaidosas em relação ao erro”.

– Certa vez, um senhor de mais de 70 anos veio fazer o meu curso, e dei um tema de improvisação. Quando ele foi apresentar, vi que começou a andar de maneira diferente e achei estranho. No fim da cena, ele me mostrou que tinha cortado profundamente o seu pé durante a cena, mas improvisou tão bem que achamos que fazia parte do personagem.

No curso, Joana trabalha com a improvisação como princípio essencial do palhaço. Ela observa que esse é um personagem que vive de imprevistos, da prática de resolver problemas que se apresentam na hora. E isso é uma habilidade da qual todos precisamos.

TENHA HÁBITO DE LEITURA

O rapper Vinicius Andrade de Lima, ou Vinicin Mc, começou em 2010 a participar do Duelo de Mc’s em Belo Horizonte, onde mora. O duelo é um espaço para a prática do freestyle, uma improvisação com rimas. Os “combatentes” batalham de diversas formas: atacando um ao outro em um tempo determinado com as rimas, disputando quem rima melhor sobre um tema proposto, rimando no compasso ditado de uma música etc. Embora Vinicin diga que o improviso é algo natural, admite que não só ele, mas muitos Mc’s passaram a ler mais para melhorar o domínio da língua portuguesa, ampliar o repertório de palavras e rimar melhor.

– Nunca fui de ler, mas peguei gosto depois de frequentar o Duelo de Mc’s. É lógico que você tende a aumentar o vocabulário e aprender palavras novas para utilizá-las. Mas a pessoa tem de tomar cuidado para não começar a usar palavras que não conhece direito – explica o rapper. Professor de comunicação verbal, Reinaldo Passadori reitera.

– É importante ter um mínimo domínio da língua, um bom vocabulário e a capacidade para organizar ideias e sistematizar uma linha de raciocínio – observa ele, que é presidente do Instituto Passadori de Educação Corporativa.

ACEITE O IMPONDERÁVEL

Um dos princípios da linguagem do improviso trabalhados pelo palhaço Márcio Ballas em seu curso de improvisação em teatro é falar “sim” para tudo o que acontece na cena. Se seu parceiro faz uma proposta, você aceita imediatamente. Vamos cavar um buraco? Sim! E eu já começo a cavar. A cena caminha aceitando as propostas. Se você fala “não”, corta a cena. O mesmo pode ser usado em situações do cotidiano, em que aquele que improvisa aceita o que acontece em torno de si e incorpora à sua improvisação. Isso leva ao segundo princípio trabalhado por Ballas, o “aqui agora”, em que tudo o que acontecer no momento é incorporado por quem improvisa. Assim, é mais fácil contornar situações que poderiam ser encaradas como um erro. Se você tropeçou, ou entraram pessoas no meio da apresentação, não dá para ignorar aquilo. Todo mundo viu ou ouviu.

SAIBA O QUE ESTÁ FAZENDO

Constitucional da PUC-SP Carlos Gonçalves Junior dá algumas dicas usadas na política e no Direito: enfatizar argumentos que são favoráveis à posição que defendemos e tentar minimizar a importância dos argumentos que a contrapõe. É imprescindível não discutir um argumento que não tenha sido estudado anteriormente. A improvisação precisa se basear em um conhecimento prévio.

Improvisar sobre algo que não se conhece bem dá margem a erros e, segundo o consultor em política e comunicação estratégica Nilson Mello, faz com que o falante perca credibilidade.

– Uma tática importante se a pessoa for encaminhada a um assunto que não concorda ou se sente desconfortável, é concentrar-se para continuar a afirmar aquilo que tem a dizer. Em vez de rebater, precisa decerta forma atenuar a crítica continuando a passar a sua mensagem prioritária – sugere Mello.