Estratégia

Defenda

seu estudo

Fazer um plano B pode prejudicar o desempenho

O estudo: Jihae Shin, da Wisconsin School of Business, e a coautora, Katherine Milkman, da Wharton School, da University of Pennsylvania, aplicaram a tarefa de decifrar frases a 160 universitários, prometendo uma barra de cereal para aqueles que se saíssem bem. Antes de receber o material, metade dos participantes foi convidada a pensar sobre o que poderiam fazer para ter comida grátis no campus caso não conseguissem ganhar o lanche. Os voluntários estimulados a formular um plano B decifraram significativamente menor número de sentenças, em média, do que aqueles que não foram solicitados a elaborar uma alternativa. 

O desafio: Quando pensamos sobre o que podemos fazer se não conseguirmos alcançar nossos objetivos, estamos menos propensos a nos sair bem? Formular um plano B pode ser contraproducente? Professora Shin, defenda seu estudo.

Shin: Esta é a nossa hipótese. E se mostrou verdadeira não só neste estudo, mas em experimentos de acompanhamento com a mesma abordagem, porém, com diferentes recompensas — tempo ou dinheiro. Acreditamos que, quando alcançar uma meta requer trabalho, não sorte, fazer um plano B pode prejudicar o desempenho, reduzindo o desejo pelo objetivo. Observamos isso no terceiro estudo, em que avaliamos os participantes sobre o quanto queriam a recompensa prometida de US$ 1. 

Aqueles que tinham sido convidados a pensar numa alternativa disseram que queriam o dinheiro menos do que os outros. Podiam até não ter se dado conta desta mudança enquanto trabalhavam, mas se mostravam menos motivados e se esforçavam menos, o que prejudicou o resultado.

HBR: Será que não estavam apenas distraídos? Ou cansados de pensar? Fizemos testes para ver se a fadiga cognitiva poderia causar o mau desempenho, mas os participantes convidados a formular alternativas antes de ordenar as frases se saíram bem. Isso confirma que a fadiga cognitiva não impulsionava os efeitos.

Mas será que assim não deixamos de ensinar a importância de não colocar todos os ovos na mesma cesta? Há, certamente, importantes benefícios em ter um plano B. Um deles é o conforto psicológico que pode trazer. Muitos pensam: “Vou ficar bem, mesmo se falhar, porque tenho a opção de fazer X ou Y”. Isso ajuda a reduzir a incerteza percebida na situação. Outra vantagem é que, se errar, você não precisa pensar muito sobre isso, e pode rapidamente aplicar seu plano B. No entanto, os custos que isso exige ainda não foram estudados. Acreditamos que conhecer os sacrifícios e benefícios envolvidos pode ajudar a tomar uma decisão melhor e mais informada.

ACREDITAMOS QUE, QUANDO ALCANÇAR UMA META REQUER TRABALHO, NÃO SORTE, FAZER UM PLANO B PODE PREJUDICAR O DESEMPENHO, REDUZINDO O DESEJO PELO OBJETIVO

Mas as tarefas em seus experimentos eram bastante simples e as recompensas eram — sem ofensa — modestas. É possível ter os mesmos resultados se estudar pessoas em situações de alto risco? De fato, podemos prever que o efeito seria mais significativo. Em uma pesquisa separada, entrevistamos pessoas do público em geral sobre objetivos reais e encontramos evidências de correlação que apoiam nossa hipótese. Aqueles que tinham formulado planos B relataram dedicar menos esforço para as metas que tentavam alcançar: conseguir uma promoção, fazer pós-graduação ou se tornar um veterinário, por exemplo. Além disso, os participantes em nossos estudos de laboratório passavam menos de dez minutos pensando sobre alternativas — um pequeno investimento de atenção que, no entanto, afetou significativamente a motivação e o desempenho rumo aos objetivos. Na vida real, quando os riscos são maiores, seria de esperar que as pessoas dedicassem mais tempo e energia para traçar planos B detalhados. E, como o esforço tende a diminuir à medida que o tempo passa, pode resultar em efeitos negativos ainda mais significativos.

A ideia para esta pesquisa, na verdade, veio da minha própria experiência no mercado de trabalho. Na época em que buscava um trabalho no corpo docente acadêmico, tinha a opção de pensar em um plano B (um emprego na indústria), mas percebi que não era uma boa ideia, porque poderia me deixar menos determinado em alcançar o meu objetivo principal.

Assim, para usar outro clichê, é preciso agir sempre como se o fracasso não fosse uma opção? A “sacada” desta pesquisa certamente poderia ser esta: se você se preparar para o fracasso, pode ficar mais propenso a falhar. Mas o conselho prático que ofereço é ainda mais sutil. 

Nossa sugestão não é que sempre evite fazer planos B, mas talvez que possa adiar esse tipo de formulação até que coloque o maior esforço possível na meta principal. Se você é um gestor de equipe trabalhando para atingir determinado objetivo, considere solicitar a outro grupo, composto de diferentes pessoas, que ajude com um plano B. Se você é um empresário, procure se comprometer com a ideia inicial por algum tempo, em vez de rapidamente saltar para outro projeto assim que as coisas não saírem como planejado. 

Minha tia sempre dizia para minha prima, uma dançarina aspirante, que ela deveria ter uma graduação de professora como garantia. Ela estava errada? Sucesso e desempenho dependem de muitos fatores. Para algumas pessoas, não fazer um plano B pode realmente ajudar a aumentar os esforços. Alguns pais acreditam que ter alternativas é sempre bom, e sempre produz resultados positivos. De acordo com nossas descobertas, sugerimos que considerem, pelo menos, os possíveis efeitos negativos.

Além do modo como busca emprego, esses resultados mudaram a forma como você trabalha? Sim, agora procuro postergar a formulação de um plano B até depois que realmente tiver feito tudo o que puder para alcançar meu primeiro objetivo. Por exemplo, quando Katy e eu estávamos trabalhando neste projeto de pesquisa, eu não pensava sobre outros que poderíamos fazer se este falhasse.

Não tenho outra entrevista para publicar em setembro se esta não servir. Bom. Isso significa que você vai se certificar de que esta corra bem. 

Artigo da Harvard Business Review Brasil, Setembro/ 2016