BNCC na prática: o que muda nas áreas de conhecimento

Como o novo texto vai influenciar nas dinâmicas em sala de aula do Ensino Médio, sob o olhar de especialistas e autores de cada área

 

As disciplinas, hoje chamadas de componentes curriculares no texto da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), estão organizadas em quatro grandes áreas do conhecimento: Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza e Ciências Humanas. Diante das mudanças propostas pelo documento, pedimos a quatro professores, autores de conteúdos sobre a nova base em cada uma dessas áreas, que comentem alguns aspectos do que vai ser modificado, na prática, em cada segmento de ensino.

 

1 – Linguagens
Por Paula Marques, professora na rede particular de São Paulo, mestre em Língua Portuguesa

 

Leitura e produção

 

Em Linguagens, é fundamental que o professor desenvolva, entre várias outras, habilidades de leituras, de produções orais e escritas. É preciso, no entanto, cuidar para que não seja realizada uma simples transposição de conteúdos para habilidades.

 

De olho no meme

 

Como já era uma tendência antes da BNCC, não é mais possível ignorar petições, cartas abertas, posts, memes, enfim, o estudo desses gêneros.

No entanto, é preciso ampliar esse enfoque para o estudante ter voz e mais ação em seu grupo social, para promover reflexões sobre a língua e definir campos de atuação. Além de novos gêneros (trailer honesto, mashup, videoblog), novas práticas de compartilhamento (curtir, compartilhar, curar, redistribuir, taguear, remediar, remixar, colaborar, etc) precisam ser trabalhadas.

 

Todas as turmas

 

Outra grande mudança é o olhar acolhedor para as múltiplas juventudes. Finalmente um documento oficial reconhece a multiplicidade desse seguimento: não temos um perfil de “alunos”, temos vários, com histórias de aprendizagens e de vida.

O documento traz a ideia de que a escola precisa considerar a existência de juventudes no plural, o que não quer dizer de diferentes lugares geográficos, mas de diferentes histórias, com diferentes linguagens, com diferentes culturas.

 

2 – Matemática
Por Douglas Dantas, professor, mestre em Ensino de Ciências e Matemática, diretor de Projetos Educacionais da Maestro Educação

 

Aplicação na realidade

 

A BNCC tem como principal mudança a proposta de fazer um ensino pautado em uma Matemática mais aplicada à realidade. Três palavras podem sintetizar: sentido, significado e contexto.

É importante destacar que a Matemática deve ser vista como uma área do conhecimento e que, apesar de estar “sozinha”, ou seja, sem outras disciplinas (componentes) junto, ela pode e deve perpassar por todas as outras áreas.

 

Por que ensinamos?

 

O ensino precisa promover habilidades que vão além do simples conhecimento e compreensão dos conteúdos a partir de suas teorias, teoremas e leis. Sabemos que temos que ensinar função exponencial. Mas, por que ensinamos? Onde aplicamos?

Este é um conceito que continuará sendo ensinado, mas com a BNCC, os estudantes são incentivados a resolver problemas que envolvem as funções em diferentes contextos, podemos interrelacionar esta habilidade, que possibilita a aplicação deste conceito na Matemática Financeira, ao trabalhar juros composto.

Ou, ainda, trabalhar conceitos envolvidos na análise de gráficos, identificando características fundamentais da função e, assim, aplicar o conhecimento para analisar a propagação de vírus, possibilitando fazer previsões estatísticas relacionadas à pandemias.

 

3 – Ciências da Natureza
Por Wolney Melo, professor de Física, mestre em Ensino de Ciências, doutor em Educação e diretor do Atitude Educacional

 

Contexto

 

O professor de Física, Química ou Biologia deve proporcionar um ensino no qual o aluno compreenda os conceitos científicos como construção humana e social. Para isso, é de fundamental importância que o ensino seja contextualizado em seus aspectos sociais, históricos e culturais.

É importante que elementos históricos sirvam de subsídios para reflexão sobre impactos políticos, sociais, econômicos e tecnológicos decorrentes do desenvolvimento de novas teorias e procedimentos científicos, fazendo com que perceba que a ciência não é neutra e que está intimamente ligada a aspectos locais, tecnológicos, ambientais, sociais e políticos de cada época e cultura.

Assim, ao estudar a construção e evolução dos conceitos da Termodinâmica, por exemplo, o professor deve proporcionar situações e atividades de forma a fazer com que o estudante consiga relacionar esses avanços conceituais aos fatores históricos, artísticos, culturais, sociais e econômicos dos séculos XVIII e XIX que ocorreram na Europa ocidental.

 

E o vestibular? E o Enem?

 

A BNCC tem força de lei e estabelece os direitos mínimos de aprendizagem a que todos devem ter acesso. Dessa forma, qualquer processo seletivo deverá estar alinhado ao que o documento apresenta como normativa, uma vez que as seleções podem ser objeto de questionamentos se assim não o fizerem.

 

4 – Ciências Humanas
Por Diego Moreira, professor e historiador, doutorando em Educação, diretor da Escola dos Saberes

 

Conceitos fundamentais

 

A BNCC busca aproximar as ciências humanas das realidades enfrentadas pelos estudantes no seu cotidiano respondendo a expectativas reais dessa faixa etária.

Cabe uma ressalva importante: ajustar isso num documento oficial não significa afirmar que as escolas e os docentes, em maior ou menor escala, não realizavam essas contextualizações e municiavam os estudantes de significados e sentidos em suas aulas.

Então a BNCC para o Ensino Médio desafia todos os envolvidos, sistemas públicos, escolas, docentes, famílias e estudantes a perceber a atualidade e o quanto os conceitos que sustentam a área das Humanidades são fundamentais para a formação integral do sujeito, seja na formação mais voltada para o mundo do trabalho ou na formação que aprofunda conceitos das humanidades.

 

O professor

 

O professor precisará continuar estudando. Metodologicamente, didaticamente, não estamos prontos. Somos novos a cada aula, a cada turma e a cada conteúdo ensinado.

É importante que se reconheça as trajetórias e avance nos saberes para a sala de aula.

E, claro, perceber que a sala de aula é um universo de descoberta para os adolescentes e para os docentes. E isso é bom. Essa descoberta mantém viva a relação que estabelecemos entre conteúdos, estudantes e sociedade.