EDUCAÇÃO INFANTIL

As crianças têm que ser ouvidas

Os desafios do uso da tecnologia na Educação Infantil e, principalmente, o que deve ser prioritário nesse tipo de interação com os pequenos

No livro Os cães ladram, uma coletânea de ensaios do escritor e jornalista norte-americano, Truman Capote, uma das narrativas é intitulada As musas são ouvidas. A expressão faz referência à fala de um então funcionário do alto escalão do Ministério da Cultura da extinta União Soviética, que declarava, na íntegra, que: “Quando os canhões são ouvidos, as musas se calam. Quando os canhões se calam, as musas são ouvidas”.

As musas, no caso, são as deusas da mitologia grega, que representam as artes. E a citação, em meio à rigidez da Guerra Fria, ressaltava a importância de se ouvir as manifestações artísticas, ao invés do caos bélico e conflituoso.

O título desta reportagem também flerta com essa necessidade – mas levando em conta outra relação: o que esperar das tecnologias de educação quando destinadas a um público infantil. Em uma época em que o protagonismo do aluno está no topo das discussões, qual seria a melhor forma de conduzir essas interações? Resposta: as crianças têm que ser ouvidas.

A afirmação é da doutora em Antropologia, Mestre em Educação e pedagoga, Adriana Friedmann, que dedica grande parte de sua carreira ao estudo das naturezas, linguagens e culturas desse público, que faz um alerta: “a questão – que já existia antes do isolamento – é que elas pouco eram ouvidas”.

 

O ISOLAMENTO E AS TELAS

 

Se o tema da escuta estava em pauta nos estudos, pesquisas e formações, a pandemia do novo coronavírus veio transformar, de forma dramática, a realidade não apenas dos pequenos, mas de todas as faixas etárias. A interrupção das aulas presenciais deixaram os filhos mais perto dos pais (muitos deles, trabalhando em home office) mas, por outro lado, distantes de colegas, professores, parentes e outros adultos de referência.

“Nesse sentido, a tecnologia se tornou o único meio de comunicação e, no caso das crianças, a possibilidade de ter alguma interlocução com aqueles com quem elas tinham vínculos presenciais”, pontua a antropóloga.

E quando se fala do papel protagonista dessa fase da vida, a especialista ressalta que elas carregam uma forma natural e espontânea de expressão – e que a tecnologia não fez com que elas, repentinamente, passassem a ser ouvidas.

“Talvez quem tenha escutado mais tenham sido os avós, mesmo que sem consciência do quanto sua postura é fundamental para as crianças”, analisa Friedmann, que vê como desafiadora a relação entre os estudantes do ensino remoto e os docentes, que passaram a ser mediados pelos devices.

“Os professores precisaram se reinventar e vêm percebendo que não são todas as crianças que gostam de se mostrar, se expor ou se expressar através das telas – e o tempo de aula ficou reduzido”, observa.

Nesse processo, mais uma vez, o ato de ouvir o que esses estudantes têm a manifestar, passou a ser importante para que esses docentes pensem em conteúdos de forma dinâmica e motivacional. Uma missão que a professora classifica como um “caminho longo” já que, muitas vezes, essa escuta não é verbal.

 

A BUSCA DE UM MODELO IDEAL

 

Por mais que se desenvolvam, frequentemente, soluções e novidades para esse segmento educacional, a antropóloga não acredita que exista um “modelo ideal” para essas interações entre tecnologia e educação. “Penso que, dependendo do perfil das crianças, dos grupos, da faixa etária, dos conteúdos e das metodologias, os professores precisarão se reinventar de forma permanente”, afirma.

Friedmann é uma defensora de que, assim que possível, seja concretizado um retorno às atividades presenciais. “Mesmo em um modelo híbrido, o presencial é fundamental, mais saudável em todos os aspectos – e necessário para relações e vínculos, para a sociabilidade e o desenvolvimento integral das crianças”, ressalta.

 

AUTONOMIA E ACESSO

 

O advento tecnológico e o aumento da utilização dessas ferramentas digitais, no entanto, são responsáveis por notórios avanços, em alguns contextos e em determinadas idades.

Dentre esses pontos, estão a facilidade de poderem se comunicar de forma permanente e, ainda, terem acesso facilitado a informações.

“Um avanço talvez tenha sido o incentivo à autonomia das crianças mas, para afirmar se ele é real, precisaria ser medido e pesquisas seriam necessárias”, pontua.

Um ponto preocupante dessa dinâmica é o retrocesso causado, por exemplo, pela falta de distribuição igualitária desses recursos tecnológicos em todos os níveis da população.

Em termos de aprendizagens efetivas, a antropóloga acredita que, no período do isolamento social, não houveram avanços. “Em termos emocionais e no que diz respeito aos corpos, penso que foram todos muito prejudicados”, diz.

Mesmo diante das mais diversas propostas e inovações na aplicação de tecnologias para a Educação Infantil, Friedmann observa que, na pandemia, “as crianças têm se mostrado, em todos os níveis, cansadas de tanta exposição às telas, expostas e, nem sempre motivadas”.

 

A IMPORTÂNCIA DO BRINCAR

 

Uma bandeira que sempre foi defendida pela autora e que, ainda hoje, se faz relevante é a possibilidade de que os pequenos, durante o processo de aprendizagem, possam brincar, pintar, se movimentar e explorar seus entornos.

“A grande mudança é nos educadores: que eles possam se preparar para um tipo de ensino aberto, em que não tem respostas certas e em que as vozes e expressões das crianças sirvam como bússolas para eles redesenharem atividades e conteúdos adequados”, conclui.

 

PARTE DE UM TODO

 

Diante de um tema que abrange público e diferentes objetivos, o desafio do uso da tecnologia da Educação Infantil deve abranger um universo onde crianças, professores, gestores educacionais e famílias fazem parte de um todo.

“Para cada obra, são destinadas diferentes soluções atreladas à tecnologia”, explica a gerente de Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino Fundamental da FTD Educação, Natalia Taccetti.

Nesse sentido, são oferecidos recursos dos mais variados, desde vídeos com contação de histórias, áudios e jogos, até materiais destinados às famílias e à gestão escolar, como a documentação pedagógica.

“Esses produtos não só facilitam o contato com diferentes propostas de ensino-aprendizagem, como diversificam as possibilidades de atuação na escola e no ambiente familiar, integrando crianças, famílias e professores com o auxílio da tecnologia, cada vez mais presente na vida de todos”, ressalta.