APRENDIZAGEM

10 DICAS DA NEUROCIÊNCIA PARA A

SALA DE AULA

NÃO HÁ “RECEITAS INFALÍVEIS” PARA APRENDER. MAS ESTRATÉGIAS PEDAGÓGICAS FUNDAMENTADAS PELOS CONHECIMENTOS NEUROCIENTÍFICOS DA APRENDIZAGEM PODEM AJUDAR OS PROFESSORES A TORNAR ESSE PROCESSO MAIS EFICIENTE. CONHEÇA ALGUMAS DELAS

 Por  Leonor Bezerra Guerra

Há alguns anos, uma professora, “alfabetizadora de sucesso”, conforme ela mesma se avaliou, disse que estava participando de um dos cursos de atualização que organizávamos sobre as bases neurobiológicas da aprendizagem, pois queria entender por que as práticas pedagógicas que usava davam certo. Segundo a professora, “ela dava tiro para todo lado e queria entender por que muitos deles atingiam o alvo e alguns não”. Em outras palavras, ela queria compreender a “mágica do ensinar e aprender” que, de mágico, não tem nada. Sabemos que a aprendizagem resulta da reorganização da estrutura cerebral, o que produz novos comportamentos. Essa mudança que ocorre no cérebro depende da atividade de diferentes conjuntos de neurônios.
O funcionamento desses neurônios resulta em sensações, percepções, atenção, memória, emoção, motivação, autorregulação, motricidade, linguagem, raciocínio lógico-matemático, ideias para resolver problemas, pensamentos e é influenciado pelos estímulos que o ambiente proporciona ao indivíduo. A “alfabetizadora de sucesso” queria saber como as estratégias pedagógicas estavam atuando sobre o cérebro e suas funções mentais, que são cerebrais, e levando à aprendizagem.


As descobertas da neurociência que esclarecem como o cérebro funciona durante a aprendizagem e indicam fatores que influenciam esse funcionamento já têm sido mais bem divulgadas atualmente. Atenção, memória, emoção, função executiva, bases neurais da leitura e da escrita, mudanças cerebrais na adolescência, desenvolvimento de habilidades sociais e os efeitos da alimentação, meditação, sono, tecnologia e música sobre a cognição e a aprendizagem em especial são exemplos de temas abordados por publicações voltadas não só para o professor, mas também para o público
em geral. Assim, o professor já conta com conhecimentos da psicologia cognitiva e da neuropsicologia da aprendizagem – estudo das funções mentais produzidas pelo cérebro e envolvidas na aprendizagem – que podem inspirar novas práticas educacionais, confirmar outras já reconhecidamente eficientes e criticar aquelas que não dão resultado. É justamente essa inspiração para a prática educacional que os professores almejam. Ou seja, sabendo como o cérebro funciona, o que eu posso fazer em sala de aula para melhorar a aprendizagem dos alunos?


OFICINA DOS SENTIDOS
Conhecer uma maçã vendo sua cor e forma, sentindo sua textura, temperatura e peso, apreciando seu cheiro, degustando sua acidez e doçura e ouvindo seu barulho ao mordê-la é bem diferente de conhecê- la por meio de uma fotografia. Aprender sobre o corpo humano ou qualquer outro assunto num museu interativo tem efeito bem diferente daquele de apenas ler a matéria no livro. Quando utiliza os vários sentidos, ao ter uma nova experiência, o aprendiz constrói uma ideia mais completa, complexa e potencialmente mais duradoura daquela experiência.

Os órgãos do sentido são as portas de entrada para o cérebro. Cada uma das vias sensoriais tem neurônios com características específicas e, por isso, capazes de traduzir diferentes tipos de energia, eletromagnética, como luz (visão), mecânica (pressão, tato, vibração, dor, audição), térmica (temperatura), química (gustação, olfação, dor) em atividade neuronal. Esses neurônios sensitivos fazem sinapses, conectando-se e transmitindo essa atividade (informação) para outros vários neurônios, que constituem redes neurais localizadas em diferentes regiões do cérebro, chamadas áreas primárias e secundárias, específicas para cada um dos sentidos: visual, auditivo, olfativo, tátil etc. Neurônios dessas áreas estabelecem conexões com um terceiro grupo de neurônios que integram, assim, todas as informações relacionadas, por exemplo, à referida maçã.


A rede neural que se estabeleceu, a partir da ativação de neurônios relacionados às várias modalidades sensoriais, dá um significado mais completo, detalhado e rico sobre a maçã e poderá ser mais facilmente reativada por qualquer estímulo, seja ele o cheiro, a evocação de sua forma
ou de s eu gosto. Reativação mais frequente dessa rede neural levará a melhor consolidação da memória da fruta. As estratégias pedagógicas devem utilizar recursos multissensoriais, para ativação de múltiplas redes neurais que estabelecerão associação entre si, proporcionando um pensamento mais complexo sobre o que se aprende e também favorecendo a memorização do que foi aprendido. 

  1. ESTIMULAR OS SENTIDOS
    Recursos multissensoriais ativam múltiplas redes neurais. Aprender sobre o corpo humano num museu interativo tem efeito bem diferente daquele de apenas ler a matéria. 

 

RETOMAR O CONTEÚDO
Quando um professor, ao finalizar a aula, pergunta aos alunos se eles têm alguma dúvida e se dá por satisfeito ao ouvir “não, entendemos sim”, ele perde a oportunidade de verificar se de fato os alunos estavam atentos à aula e compreendendo o que ele explicava. Só temos certeza de que nosso cérebro processou uma informação recebida passivamente se ele tiver de usá-la de alguma forma. O aluno pode ter ficado o tempo todo olhando para o professor e pensando no quanto ele o acha legal (ou não), sem sequer saber sobre o que o professor falava. Ou pode ocorrer também que a aula tenha sido espetacular: o aprendiz conseguiu compreender tudo o que o professor apresentava de forma muito didática e ficou com a sensação de que entendeu tudo.


Qualquer que seja a situação, o professor deveria perguntar ao aluno “o que você entendeu sobre o que eu falei?” ou poderia solicitar a ele que explicasse para um colega o que entendeu da aula ou incentivar todos os aprendizes a elaborar um texto relembrando as informações apresentadas, ou ainda motivar, por meio de perguntas, a discussão de tópicos da aula entre os colegas. Essas estratégias dariam aos alunos a oportunidade de usarem a memória operacional que ainda estiver processando a aula, para fazer associações e comparações com outros conhecimentos e experiências já armazenados na memória e relacionados ao que foi apresentado. Assim, o aluno poderá perceber lacunas no seu entendimento sobre o que foi abordado. O estudante só aprenderá algo novo se o cérebro dele tiver oportunidade e for motivado a processar o que lhe é apresentado. Aprendizagem resulta da reorganização de redes neurais espalhadas pelo cérebro. Essas redes neurais precisam ser ativadas para que sinapses sejam feitas e desfeitas, levando à modificação da relação entre os neurônios – o que chamamos de neuroplasticidade – e, assim, a novos conhecimentos, ideias, atitudes, habilidades motoras. Ver e rever, escutar, falar e voltar a falar, escrever e reescrever, contar e recontar, experimentar e vivenciar, dando significado ao que se faz, é importante para o aprendizado. A repetição ou o uso de um comportamento, informação ou experiência, em variadas situações, por muitas vezes e em momentos diferentes, promoverá a atividade
mais frequente dos neurônios relacionados a ele e produzirá
sinapses mais consolidadas, mais firmes.

 

2. RECONTAR, REVER, REPASSAR
A consolidação das memórias e sua preservação dependem da reativação dos circuitos neurais. Experiências e informações precisam ser repetidas para manter as conexões cerebrais relacionadas a elas. 

 

Esse conjunto de neurônios associados numa rede é o substrato biológico da memória daquele comportamento ou informação ou experiência. Os registros transitórios – memória operacional
– serão transformados em registros mais definitivos – memória de longa duração – à medida que eles forem processados novamente pelo cérebro. Não é o que acontece quando o aluno estuda apenas na véspera da prova, mantendo as informações na memória operacional. Assim que as utiliza na prova, garantindo a nota, as esquece. Se ele não é motivado a manter a atividade nessas redes neurais, recordando o que foi estudado, esquece o que “sabia”. É por isso, também, que apresentar conteúdos/experiências considerando o contexto de vida do aluno é importante. Se o que aprende em sala de aula puder ser aplicado na sua vida, o aprendiz reutilizará mais a informação/experiência, e isso contribuirá para a consolidação de memórias. O conjunto dessas memórias propiciará as habilidades e competências, produzidas pela aprendizagem, e necessárias à melhor adaptação e ao sucesso do aprendiz ao longo de sua vida. Mas a memória não se forma de imediato, “da noite para o dia”. A formação de sinapses demanda reações químicas, produção de proteínas e tempo para que ela ocorra. As redes neurais não se reorganizam imediatamente a partir de um único contato com algo novo. A fixação das memórias ocorre pouco a pouco, a cada período de sono, quando as condições químicas cerebrais são propícias à neuroplasticidade.
Por isso, a aprendizagem requer reexposição regular e frequente aos conteúdos/experiências, sob formas diferentes e níveis de complexidade crescentes, e, claro, boas noites de sono e cochilos diurnos, que também colaboram para formação de memórias. Dormir é essencial para a aprendizagem. Enquanto dormimos, o cérebro reorganiza as sinapses, elimina aquelas em desuso e fortalece as que são importantes para comportamentos do cotidiano do indivíduo. 

3. DORMIR BEM
Enquanto dormimos, o cérebro reorganiza suas sinapses, elimina aquelas em desuso e fortalece as que são importantes para comportamentos do cotidiano do indivíduo. 

 

DESAFIAR O (DES)CONHECIMENTO
Por que temos chulé? Por que temos espinhas? Por que os preços sobem? Toda chuva tem trovão? Quais são os erros de português na música Shopis centis? Despertar curiosidade, tornar o assunto interessante, fazer uso de conhecimentos prévios e dar significado ao que se aprende são estratégias
valiosas para promover aprendizagem. Uma aula que começa com uma pergunta que se desdobra noutras que despertem o interesse do aluno e desafiem seu (des)conhecimento tem maior chance de recrutar a atenção do aprendiz. Para levar os alunos a responder às perguntas, o professor pode fazer uso de estratégias variadas, utilizando um vídeo para ilustrar e solicitando aos grupos de
alunos que busquem a resposta em diferentes fontes – eles podem usar a biblioteca ou os computadores da escola ou até seus celulares. As respostas podem ser comparadas com dados do livro-texto e, ainda, cada grupo pode apresentar a defesa de sua “resposta”. Se assim for, essa aula terá sido bem diferente de uma aula expositiva sobre o mesmo tema.


O cérebro se estruturou ao longo da evolução, proporcionando ao indivíduo aprendizagem e, portanto, aquisição de comportamentos que possibilitem sua melhor adaptação e sobrevivência aos contextos em que ele vive. Aprendemos o que é significativo e necessário para vivermos bem e esquecemos aquilo que não tem relevância para a nossa vida.
A escola deve ser um local onde o aprendiz se transforma, desenvolvendo suas habilidades para analisar situações, identificar problemas e pensar em soluções. Ele precisa sentir que a participação naquela aula o tornará mais apto ao seu contexto de vida. 

4. DESPERTAR CURIOSIDADE
O cérebro, por meio da atenção, seleciona as informações mais relevantes para o bemestar
e a sobrevivência do indivíduo. E ignora o que não tem relação com sua vida, seus desejos e
necessidades.

 

Dificilmente um aluno prestará atenção em informações que não compreende, não tenham relação com o seu arquivo de experiências, com seu cotidiano, ou não sejam significativas para ele. Sabemos que a atenção é imprescindível para o registro de memórias. A abordagem dos conteúdos das disciplinas por meio de assuntos, exemplos e ferramentas que estejam relacionados ao cotidiano do aluno, ou que sejam novidade e despertem sua vontade de conhecer, motivará o aprendiz. Atualmente, o uso bem planejado e dosado da tecnologia em sala de aula, por meio de mídias variadas, para contemplar objetivos de aprendizagem interessantes e desafiadores, favorece o engajamento do aprendiz na aula e previne sua distração pela própria tecnologia. A abordagem de temas sob a forma de problemas, que geram curiosidade, até pelo desconhecimento que o aluno é levado a perceber que tem, aumenta o interesse do aprendiz, favorecendo sua atenção.


No entanto, a atenção flutua ao longo do tempo, principalmente quando a atividade em questão não é motivadora. Podemos nos distrair pensando em situações passadas ou futuras ou mudando o foco de atenção para outro estímulo do ambiente, como um ventilador, o colega ao lado ou uma mensagem no celular. O cérebro não processa dois estímulos simultaneamente, e sim alterna sua atenção entre um estímulo e outro, perdendo parte da informação, o que compromete a memória. Por isso, é recomendável evitar aulas longas, sem intervalos e com conteúdos muito densos, pois muito da aula é “perdido” com essas distrações. Se longas, as aulas devem contar com alternância de atividades (exposição de tema, perguntas que motivem discussão do tema entre colegas, vídeos, produção de textos, entre outros), de entonação de voz e posição do professor e pausas para descanso ou para contar um caso curioso ou surpreendente.     

5. EMOÇÕES
São valiosas para a aprendizagem. Influenciam funções importantes, como atenção e memória. O professor deve ser perspicaz em relação às suas emoções, às dos alunos e às da turma como um todo. 

 

PRAZER EM APRENDER
Aliás, contextos, estratégias e conteúdos que desencadeiam emoções favorecem a aprendizagem. As emoções influenciam funções importantes para a aprendizagem, como atenção, percepção, memória, funções executivas. Aprendemos aquilo que nos emociona. As emoções indicam para o cérebro o que é importante à sobrevivência do indivíduo e o que vale o esforço e gasto energético necessários à aprendizagem. No
cérebro, áreas que regulam as emoções, relacionadas ao medo, ansiedade, raiva, prazer, motivação, influenciam áreas importantes para a formação de memórias. Situações que favorecem a aprendizagem são aquelas prazerosas, motivadoras, que produzam curiosidade e expectativa, signifiquem desafios, seguidas de sensação de bem-estar pela solução da questão, permeadas por afeto ou até mesmo por pequeno e transitório estresse, como em caso de tarefas difíceis, mas transponíveis. A ativação de circuitos neurais de prazer e recompensa no aprendiz o fará perder o medo de errar. Para isso, é importante que o aluno perceba que o que ele aprendeu dá bons resultados, transforma seu dia a dia, atende às suas necessidades, facilita sua vida e a torna melhor. Isso o motivará a experimentar mais, a repetir o que aprendeu, a fazer novas tentativas com mais frequência. A empatia, o ambiente de segurança, o conforto, o apoio e a afinidade entre pares, nas turmas, são importantes. O professor deve ser perspicaz em relação às suas emoções, às dos alunos e às da turma como um todo. A emoção é valiosa para a aprendizagem e pode ser bem conduzida pelo professor.

 

6.MOTIVAÇÃO
Desafios e mesmo pequenas situações de estresse transitórias e transponíveis, nas quais os alunos percebam que superaram um problema,
ajudam a mantê-los estimulados e interessados em aprender mais


PLANEJAR E ORGANIZAR
As funções executivas, relacionadas à área pré-frontal, são funções cognitivas envolvidas no estabelecimento de objetivos, planejamento e organização da sequência de atividades voltadas para uma meta, gerenciamento do tempo, atenção direcionada ao objetivo, persistência em uma tarefa, memória de trabalho, flexibilidade para mudar estratégias, tomada de decisão e, também, na regulação emocional e nas habilidades sociais. O desenvolvimento das funções executivas é essencial para a capacidade de uma pessoa resolver problemas e avaliar o próprio comportamento, regulando-o para melhor adaptação a determinado contexto.

Em sala de aula, atividades baseadas em discussões em grupo e desenvolvimento de projetos são ótimas para desenvolvimento de funções executivas. Elas requerem iniciativa dos alunos, dão a eles oportunidade de escolha e proposição de temas a serem estudados e exigem planejamento de atividades – considerando estabelecimento de prazos para sua execução, alteração de planos quando um imprevisto acontece –, criatividade para superação de obstáculos e regulação emocional para manutenção de interação social produtiva. Elas demandam também busca de informação utilizando-se os recursos disponíveis, identificação e seleção do que é mais relevante como contribuição para o projeto e análise crítica das informações.


É importante que o professor motive os alunos reconhecendo o seu empenho durante o desenvolvimento das atividades, fornecendo orientações quando necessário, mostrando que erros são importantes para reflexão sobre outras formas de resolver os problemas e indicando o seu sucesso.


Tornar o aluno participante ativo, sujeito responsável por sua aprendizagem, também contribui para o desenvolvimento de suas funções executivas. Para isso, o aprendiz precisa ter um papel ativo e não se sentir apenas um receptor de informações. O professor deve conhecer os interesses do estudante, saber quem ele é, torná-lo figura central nas atividades durante as aulas, reconhecer suas limitações e orientá-lo a superá-las. Dependendo da faixa etária, é interessante explicar ao aluno o que são as funções executivas e ressaltar a sua importância no cotidiano, incluindo o dia a dia da escola. O professor deve orientá-lo a tomar consciência e a refletir sobre seus pensamentos, objetivos, decisões e estratégias para atingir metas, incluindo o sucesso na aprendizagem. O aluno precisa reconhecer que aprende para ter mais habilidades para a vida, para ser um indivíduo com melhores chances de se realizar como pessoa, e não para atender a uma expectativa dos pais ou do professor. Devem-se propiciar ao aluno oportunidades para atuar no seu processo de aprendizagem e sentir autoeficácia, percebendo que seu envolvimento com o estudo e a escola está valendo o seu tempo e esforço. Nessa condição, ele precisará planejar as estratégias que usa para estudar e autorregular seu comportamento a fim de atingir suas metas.  

 

7. TEMPO DAS AULAS
Aulas longas, sem intervalos e com conteúdos muito densos são mais propensas a distrações. Nesse caso, devem contar com alternância de atividades (como perguntas que motivem discussão e vídeos), de entonação de voz e posição do professor e pausas para descanso ou para contar um caso curioso.

 

8. AMBIENTE
A aprendizagem é um processo biológico que depende dos estímulos oferecidos. A empatia, o ambiente de segurança, o conforto, o apoio e a afinidade entre pares, nas turmas, são importantes.

 

9. PARTICIPAÇÃO
O aprendiz não deve se sentir apenas um receptor de informações. Precisa ter papel ativo. O professor deve torná-lo figura central durante as aulas, reconhecer suas limitações e orientá-lo para superá-las. 

 

TESTAR PARA AVALIAR
Avaliações são comumente usadas para verificar o que se aprendeu. No entanto, podem ser utilizadas como estratégia para a aprendizagem, facilitando a formação de memórias. O aluno é apresentado a algum conteúdo, sejam imagens, textos, vídeo, lista de países, entre outros. Em seguida, ele é submetido a um teste de recordação por meio do qual deve recordar livremente, ou orientado por perguntas, escrevendo, recontando ou desenhando tudo o que ele estiver se lembrando do que foi trabalhado. Essa recordação pode ser realizada também por meio de pistas, como preenchimento de lacunas. Supõe-se que o teste aplicado logo após o estudo protege a memória operacional contra interferências de informações apresentadas posteriormente e oferece mais chances para a formação de memórias de longa duração. E é mais eficiente do que o aluno apenas reler ou rever o conteúdo apresentado. A recordação de determinada informação contribui para sua maior retenção na memória, o que é chamado “efeito testagem”. Uma aprendizagem baseada em evocação do que foi apresentado ao aluno melhora o desempenho dele. Isso é constatado quando, dias depois, o aluno é submetido a uma avaliação tradicional. O uso de testes do tipo “falso ou verdadeiro” e de múltipla escolha também é uma forma de evocar a informação por meio de reconhecimento – o aluno compara a informação armazenada na memória e os estímulos apresentados durante o teste. No entanto, esses testes não são tão eficientes quanto a recordação livre, porque o aluno pode, ao ser apresentado a uma afirmativa falsa e considerá-la verdadeira, armazená-la como tal na memória. O feedback em relação às questões ameniza esse efeito negativo e dá oportunidade ao aluno de constatar o que interpretou de forma equivocada. Solicitar a ele que justifique ou corrija afirmativas falsas também é uma forma de testar por evocação.


Esse processo de apresentar conteúdos e dar oportunidade de evocação, aplicação, constatação de erros, dúvidas e discussão do que não foi compreendido e nova oportunidade de verificação do que foi armazenado é a base da aprendizagem. A partir desse fundamento, o professor pode criar estratégias de avaliação diversificadas que tenham como objetivo auxiliar a aprendizagem ou verificá-la.


Notas não deveriam ser a força motriz da aprendizagem. Avaliações, e as notas consequentes, deveriam funcionar como indicadores de que as estratégias de ensino e de estudo estão sendo eficientes ou não e motivar o professor e o aluno para adoção de estratégias alternativas. Por isso, a devolução das provas corrigidas é importante, pois possibilita ao aluno constatar o erro e o que o causou, quer seja uma dificuldade de compreensão, retenção da informação ou distração. O aluno precisa saber por que está errando e onde está falhando para poder refletir sobre o que ele pode fazer para melhorar. E, em alguns casos, precisa ter orientação sobre o que deve fazer, se não conseguir descobrir isso por conta própria. Nem sempre o aluno sabe como estudar uma matéria, como transformar o que lê em algo que faça sentido. Às vezes, uma orientação sobre “como pensar” aquele conteúdo específico pode ajudar. Na aprendizagem, é imprescindível o estabelecimento de uma relação de confiança entre professor e aprendiz, na qual este tem a convicção de que o outro está ao seu lado, não para escolher o caminho a trilhar, mas para orientá-lo sobre como trilhar um caminho que lhe dê mais condições de ser bem-sucedido.

 

10. AVALIAÇÕES
Provas e notas deveriam funcionar como indicadores de que as estratégias de ensino e de estudo estão sendo eficientes ou não e motivar a adoção de estratégias alternativas. O aluno precisa saber por que está errando e onde está falhando para poder refletir sobre como melhorar.

 

NEUROCIÊNCIA E EDUCAÇÃO
Pense, então, no cotidiano escolar, no dia a dia da sala de aula, nas estratégias pedagógicas utilizadas, como peer instruction (colegas explicando para colegas), mapas conceituais, aprendizagem baseada em problemas, aulas expositivas, ditado, cópia, exercícios, devolução de provas, e na forma como os alunos participam da aula, nas experiências que tiveram sucesso e também naquelas que não funcionaram. O que acontece na escola tem relação com o que a neurociência indica? Muito do que já é realizado encontra fundamento na forma como o cérebro funciona, e é por isso que “muitos tiros
acertam o alvo”. Mas há estratégias que não produzem o aprendizado esperado; são os “tiros que não atingem o alvo”. E, nesse caso, podem ser necessárias mudanças que envolverão o professor, o aluno, o currículo, a rotina da escola, a participação dos pais e a forma como o cérebro funciona.


Nunca foi necessário saber como o cérebro funciona para que as pessoas aprendessem. Educadores já utilizavam estratégias pedagógicas eficientes mesmo que não soubessem como o cérebro fazia uso delas. Não podemos achar que neurocientistas são necessariamente bons professores e conhecem “as receitas infalíveis” para a aprendizagem, pois esta depende de outros fatores além do conhecimento sobre o funcionamento cerebral. Mas professores podem torná-la mais eficiente quando criam ou selecionam estratégias pedagógicas fundamentadas pela psicologia cognitiva e pela neuropsicologia da aprendizagem.


Muito do que a neurociência sabe sobre o comportamento e, mais especificamente, sobre a aprendizagem ainda não foi testado no contexto da sala de aula, ambiente rico, variado, dinâmico e influenciado por tantos fatores (rotina, acesso à informação, apoio dos pais, interação com a comunidade, redes sociais, conhecimento prévio, valores, entre outros), bem diferente do ambiente controlado de um laboratório. Mas já há iniciativas importantes nesse sentido. A Rede Nacional de Ciência para Educação (CpE) (cienciaparaeducacao. org) visa aproximar educadores, gestores e pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento para discussão e realização de pesquisas científicas que possam promover melhores práticas e políticas educacionais baseadas em evidências, levando os conhecimentos adquiridos no laboratório para a realidade da escola.


Se você está lendo este artigo, de certa forma já está participando desse diálogo sobre as questões da escola a serem investigadas da perspectiva da neurociência. Outras boas indicações surgirão.   

•  Leonor Bezerra Guerra é médica com especialização em neuropsicologia, professora de
neuroanatomia do curso de medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), coordenadora do projeto Neuroeduca, de divulgação de conhecimentos de neurociência para profissionais da educação.