FORMAÇÃO EM SERVIÇO

O QUE (E COMO) ENSINAR O PROFESSOR NA SALA A O LADO?

À FRENTE DUMA TURMA GRANDE, É DIFÍCIL PERCEBER COMO O ALUNO REAGE ÀS EXPLICAÇÕES. POR ISSO, NUMA ESCOLA EM SÃO PAULO, OS PROFESSORES TÊM UM TRATO: DEIXAR QUE UM COLEGA VEJA SUA AULA E APONTE DEFEITOS

Por Danielle Ferreira

Uma vez por mês, Dalson Alves de Lima Graça, professor e coordenador de matemática no Colégio Albert Sabin, em São Paulo, assiste à aula de algum colega. Faz três anos um professor se põe na posição de aluno para depois contar o que viu e o que notou durante a aula. No início, algumas pessoas pensaram que a diretoria arquitetou um disfarce para a caça às bruxas. “Acharam que iam assistir às aulas porque queriam demitir gente”, diz Dalson. “Mas a intenção era o contrário: era qualificar os professores.” Após o professor se convencer de que não há tramoia, no entanto, há outro empecilho: como criticar sem magoar? O professor já vive sob a dura mira dos alunos. Ouvir críticas de outro professor pode fazê-lo se sentir minimizado. “Sabemos que eles dão o melhor de si, mas a instituição quer que deem aulas melhores. Daí cabe ao gestor dar um retorno sobre as aulas de uma forma produtiva tanto para quem está assistindo como para quem é assistido.”

Imagine se o professor de geometria no 8º ano pode criticar a aula de análise combinatória no ensino médio? Pode sim. “Muitas vezes o professor não enxerga tudo que ocorre durante a aula”, diz Dalson. “Ele tem a visão limitada da lousa para trás.” Mas, para essa troca funcionar bem, ele deve estar aberto a críticas e deixar claro se a aula do dia será sobre aplicações, teoria ou resolução de problemas. Com isso em mente, o colega pode diferenciar uma aula mais dinâmica e agitada (a de problemas) duma mais tradicional (a teórica) e então avaliar se o professor adotou uma boa estratégia naquele contexto. Dalson também acha importante o observador dar seu parecer o mais rápido possível, pois o passo seguinte é combinar as mudanças para a próxima aula, na qual o professor-observador pode avaliar se a mudança surtiu efeito.

Dalson conta que, nos Estados Unidos, os professores do projeto Math Circle têm um modelo muito interessante de assistência em seus cursos de matemática. Em 2013, Dalson participou desse projeto no qual professores dão cursos extracurriculares de matemática. Lá os professores podem assistir aulas de duas formas: Um professor ensina um grupo de 15 alunos, enquanto outro professor observa. Ou um professor apresenta um problema de matemática para a turma resolver, enquanto nove professores acompanham em silêncio a interação da classe. Neste caso, o silêncio é importante para deixar os alunos mais à vontade — pois que aluno ousaria levantar a mão numa sala com dez professores? Assim, quietinhos, os professores ouvem as hipó- teses e as discussões dos alunos, anotam como reagem, classificam as dificuldades. “O mais bacana dessa experiência é o feedback. Quando a aula acaba, cada professor faz uma fotografia do que viu durante a aula.”

FORMIGA E CUPIM

Frase Quando estava nos Estados Unidos, Dalson propôs o seguinte probleminha a uma turma de jovens:

Problema. Num tijolo maciço de superfícies lisas, uma formiga sente que há mel por perto. O tijolo mede 30 centí- metros de comprimento por 12 de altura e 12 de largura. A formiga (veja o ponto F na figura 2) está no meio duma face lateral do tijolo a um centímetro da face inferior do bloco, enquanto a gota de mel (veja o ponto M na figura 2) está no meio da face oposta à da formiga, mas a um centímetro da face superior. Qual o caminho mais curto para que ela chegue até o mel?

No início, o estudante acha o problema simples e óbvio: basta a formiga subir 11 centímetros até o topo do tijolo, andar em linha reta até a face onde está o mel e descer um centímetro até o destino: 1 + 30 + 11 = 42 centímetros. Mas logo desconfia duma solução melhor, talvez usando a face lateral do tijolo como atalho. Ele imagina a formiga fazendo várias rotas sobre o tijolo e sente a necessidade de pôr aquilo no papel. Pega um papel quadriculado para traçar uma figura perfeita, mas fica frustrado: listar e comparar os vários trajetos dará muito trabalho. Decide então acabar com o problema do problema: tirar uma dimensão da figura. Faz um desenho do tijolo como se fosse uma caixa de papelão estatelada no chão. Ao vê-lo planificado, como na figura 2, reconhece uma das noções mais básicas da geometria plana: a menor distância entre dois pontos é uma reta. Feito isso, usa o teorema de Pitágoras para encontrar o comprimento de FM.

Após a aula, Dalson ouviu a opinião e as sugestões tanto dos professores como dos alunos. Leu vários bilhetes de alunos surpresos com o jeito de usar o teorema de Pitágoras. Dalson também se lembra de uma aluna que teve dificuldade em interpretar a questão, pois achava que podia traçar a linha de F até M por dentro do tijolo, como se a formiga fosse um cupim. “Muitas vezes quando a gente propõe o problema, pensamos: é claro que o aluno vai perceber que a formiga caminha pela face.” Dalson então improvisou um jeito de explicar o problema graças ao comentário do professor que assistia à aula.

Professores acabam se acostumando a ensinar os mesmos conceitos todo ano e isso pode gerar dois problemas. Com o tempo o professor se acostuma a ver esses conceitos como fragmentos sem conexão entre si. E quando o aluno tem dificuldade com algum assunto, o professor não sabe em que etapa do aprendizado surgiu o problema. Dalson dá aulas para a turma do 9º ano e para o último ano do ensino médio, além de coordenar o departamento de matemática. Para ele, o projeto de assistência também ajuda o professor-observador a ter uma visão mais panorâmica do conteúdo ao longo das séries e de como os alunos estão aprendendo durante essas etapas. “Aqui no colégio já consegui identificar uma dificuldade que surge no 7º ano. Em casos assim, preciso pedir ao professor para reforçar o assunto naquele ano ou mudar a abordagem da aula”, diz Dalson. “Assim evito uma bola de neve que ficaria enorme lá no ensino médio.”